Cenário é favorável para Angela Merkel na Alemanha

Tobias Schwarz/AFP A chefe de governo entre os eleitores na visita anual do público à sede da chancelaria: popularidade sólida, parcerias limitadas para o gabinete

Faltam quatro semanas para que, salvo um terremoto político de proporções catastróficas, Angela Merkel possa comemorar a conquista do quarto mandato consecutivo como chefe de governo da Alemanha. As últimas pesquisas sobre a eleição legislativa de 24 de setembro confirmam um quadro praticamente estacionário, em que o partido da chanceler, a União Democrata Cristã (CDU), ronda o patamar dos 40% das intenções de voto, somado ao partido-irmão da Baviera, a União Social Cristã (CSU). Merkel, que se mantém como a política mais popular do país desde que chegou ao cargo, em 2005, marcha para igualar-se ao mentor, Helmut Kohl, que reinou por 16 anos e presidiu a reunificação alemã, em 1990-1991. Mas apenas as urnas poderão responder a pergunta que os eleitores relutam em definir: quem formará a coalizão de governo com a CDU-CSU?
O Partido Social-Democrata (SPD), mais do que centenário, sobrevivente da ditadura nazista, patina em torno dos 25% e parece distante do sonho de voltar a encabeçar o gabinete. Sócio menor da “grande coalizão” — como é chamada, na política alemã, a aliança entre os dois principais partidos do pós-guerra —, o SPD chegou a sonhar com a decolagem de seu candidato a chanceler, Martin Schulz. Mas o ex-presidente do Parlamento Europeu não encontrou o tom para ameaçar a posição confortável da chefe de governo. “Merkel ou Merkel: a única opção para a Alemanha?”, perguntou na semana passada, em editorial, o jornal conservador Die Welt.
A chave para compreender o quebra-cabeça que se anuncia em Berlim  está no empate técnico que se arrasta entre quatro legendas menores que devem se somar aos dois grandes na nova legislatura do Bundestag (parlamento federal). O Partido Liberal Democrata (FDP), a Esquerda, os Verdes e a Alternativa para a Alemanha (AfD, extrema direita) oscilam nas pesquisas entre 8% e 10% das intenções de voto. O centrista FDP, que ficou fora da última legislatura por não atingir a votação mínima de 5%, é a opção preferencial de Merkel para livrar-se da “grande coalizão”. Quanto ao SPD, poderia tentar apenas uma improvável coalizão com ecologistas e esquerdistas.
O provável ingresso da AfD no jogo parlamentar, somado ao retorno dos liberais, coloca o país diante da experiência inédita de um Bundestag com seis partidos. A presença da recém-fundada legenda nacionalista e anti-islã, rejeitada como parceira por todas as demais formações, desponta como possível complicador para os próximos anos — assim como foram a entrada dos Verdes, nos anos 1980, e dos neocomunistas, na década seguinte.
Uma pista para o sucesso da ultradireita, que conquistou cadeiras em todas as eleições regionais que disputou desde 2015, está na pesquisa divulgada sexta-feira pelo instituto Allensbach, na qual a AfD aparece como terceira força, com 10%. Questionados sobre a principal tarefa do próximo parlamento, 12% dos eleitores apontaram a imigração, que lidera as preocupações à frente de desigualdade/pobreza (9%) e de terrorismo/segurança (7%). A boa cotação, porém, não compensa a frustração da legenda, que apostava na perspectiva de tirar Merkel do governo. “Os prognósticos indicam que ela deve ficar”, resigna-se a candidata a chanceler, Alice Weidel. “Parece que nada ‘pega’ nela.”
Na estrada
A liderança folgada não parece refrear o entusiasmo da chefe de governo, que vem percorrendo o país e, até o dia da votação, deve visitar mais 50 cidades. Ontem, ela pôde medir a popularidade durante a visita anual do público ao prédio da Chancelaria, no centro histórico de Berlim: foi intensamente assediada para selfies e apertos de mão, mal disfarçando a expressão tímida. “Estou totalmente concentrada para que a CDU vença”, disse, repetindo o mantra da campanha.
Cuidadosa em driblar as polêmicas levantadas pelos adversários, a chanceler administra também a própria volúpia por votos. Na eleição de 2013, animada com a ideia de obter maioria absoluta, a chanceler atropelou redutos dos liberais, então seus parceiros de coalizão. Não alcançou a meta, mas deixou o FDP  fora do parlamento. Sem opções, teve de repetir a “grande coalizão” com o SPD, com quem já havia governado entre 2005 e 2009.
Cenário é favorável para Angela Merkel na Alemanha
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