Cientistas criam exame para monitorar atividade cerebral de bebês

Valdo Virgo/CB/D.A Press
Nos anos 1990, os aparelhos de ressonância magnética funcional revolucionaram exames médicos ao permitir a observação da atividade cerebral de humanos. Desde então, busca-se ferramentas que permitam análises cada vez mais apuradas do órgão. Pesquisadores franceses, por exemplo, desenvolvem uma solução capaz de gerar imagens detalhadas do cérebro de recém-nascidos, o que possibilitará a detecção da origem de problemas como as convulsões. Testes iniciais com bebês tiveram resultados positivos, apresentados na última edição da revista Science Translational Medicine.
Os cientistas ressaltam que a pesquisa busca atender demandas não atendidas pelas tecnologias atuais.“A ressonância magnética tem limitações e não é adequada para todas as aplicações clínicas devido ao seu custo e tamanho, que dificulta sua portabilidade. Utilizá-la à beira do leito médico para gerar imagens de recém-nascidos vulneráveis é algo especialmente desafiador”, explicam.
Liderados por Olivier Baud, chefe do serviço de neonatologia do Hospital de Assistência Publica de Paris, na França, os pesquisadores criaram um dispositivo que consiste na combinação do eletroencefalograma (EEG) — aparelho que capta imagens por meio de eletrodos colocados na cabeça — e uma sonda de ultrassom de apenas 40g capaz de fazer um monitoramento mais pontual. “Ao contrário das técnicas convencionais, limitadas às imagens de grandes vasos, a imagem da sonda permite o mapeamento de alterações sutis em pequenos vasos cerebrais. Esse tipo de visualização possibilita correlacionar a atividade neural local e as mudanças relativas ao volume de sangue”, diz Baud.
Os pesquisadores testaram o aparelho em ratos e observaram a conectividade cerebral das cobaias durante o estado de repouso e ataques de epilepsia. Em seguida, foram feitos testes em seis recém-nascidos saudáveis. As medições conseguiram distinguir entre o sono silencioso e o ativo. Ao distinguir essas duas fases, fica mais fácil analisar as atividades neurais de um indivíduo.
A tecnologia também foi empregada para medir a atividade cerebral em dois bebês com distúrbios convulsivos e resistentes aos medicamentos disponíveis. O aparelho detectou ondas de alterações neurovasculares, permitindo o rastreamento de regiões cerebrais em que as convulsões se originaram.
Para a equipe, os testes iniciais sinalizam que o dispositivo poderá ajudar a prevenir complicações que podem ser registradas nos primeiros dias de vida de bebês, como a encefalopatia neonatal hipóxico-isquêmica. “Esse problema de saúde ocorre de um a três a cada mil recém-nascidos e pode desencadear danos como as convulsões. Por isso,  o monitoramento em tempo real da função cerebral em recém-nascidos é de importância crucial para a área médica”, justificam os autores.

Novo padrão

O baixo custo e a facilidade de uso da técnica são os principais atrativos e poderão fazer com que ela se torne a escolha padrão para gerar imagens cerebrais de recém-nascidos em maternidades e centros médicos, dizem os criadores. “Essa pode se tornar uma modalidade de neuroimagem muito útil. Seu baixo custo e sua usabilidade podem torná-la a escolha padrão para a realização de imagens funcionais feitas no leito. Além disso, sua melhor resolução pode fornecer resultados muito mais úteis do que outras técnicas funcionais de imagem.”
Renato Mendonça, neurologista do Laboratório Exame de Brasília, destaca que a nova tecnologia tem potencial para ser bastante explorada na área médica. “Apesar de ainda bastante experimental, esse aparelho mostrou resultados interessantes nos testes com roedores e com bebês e que podem ser extremamente úteis, já que é muito difícil examinar os pequenos. Um aparelho que possa ser utilizado na beira do leito traria a vantagem de não precisar alterar a temperatura da criança, por exemplo, já que atualmente é necessário retirá-la da máquina de estufa para realizar essas análises”, explica.
O especialista ressalta ainda que a maioria dos bebês não precisa ser submetida a exames de imagem apurados, mas, nos casos em que a análise é necessária, é importante ter uma opção mais eficiente. “Observar os diferentes níveis de atividade cerebral, como as fases do sono, também pode ajudar a entender como os neurônios estão funcionando e as reações químicas envolvidas nessa atividade complexa”, complementa. Segundo o médico, uma análise mais ampla poderia ser a próxima etapa do estudo. “Utilizar esse método em um número maior de crianças é necessário para reforçar os dados e também comprovar que ele é seguro, não causa danos aos bebês.”

Oxigênio escasso

Ocorre devido à diminuição da oferta de oxigênio, que pode ser gerada por diversas complicações, como a interrupção do fluxo sanguíneo umbilical e uma insuficiente troca de gases na placenta. A oferta adequada de oxigênio aos tecidos é fundamental para que as células mantenham o metabolismo e as funções vitais. Entre os bebês que sobrevivem a essa complicação, 25% apresentam dano neurológico permanente, manifestado por paralisia cerebral, retardo mental ou crises convulsivas.
Cientistas criam exame para monitorar atividade cerebral de bebês
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