Com altos e baixos, Brasil cumpre missão militar no Haiti

Hector Retamal / AFP - 1/9/2017

Brasília, Brasil – O Brasil encerra nesta semana 13 anos de operação militar no Haiti sob seu comando, em meio a discrepâncias sobre os benefícios desta missão de paz da ONU para o país mais pobre das Américas. 

Instalada em 2004 após uma rebelião armada que derrubou o presidente Jean Bertrand Aristide, a Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (Minustah) foi a primeira desse tipo dirigida e integrada em sua maioria por sul-americanos, 70% provenientes de Brasil, Argentina, Uruguai e Chile. O ministro da Defesa, Raul Jungmann, disse à AFP que a avaliação desses treze anos de missão é “extremamente positiva”. 
“Quando nós iniciamos essa missão, o Haiti vivia uma situação de guerra civil, de profunda instabilidade e de muita violência”, afirmou Jungmann antes de viajar a Porto Príncipe para participar da cerimônia que conclui a participação de tropas brasileiras na ilha, atualmente de aproximadamente 950 soldados. “Hoje, quando nós deixamos o país, ele se encontra pacificado, tem estabilidade, existem forças policiais que asseguram a segurança e também foram feitas eleições livres e democráticas”, acrescentou. 
A fim de reforçar a segurança e os trabalhos humanitários durante o primeiro período, a missão foi prorrogada em 2010, quando um terremoto devastou as já castigadas estruturas do país e deixou 220 mil mortos. Após o terremoto houve uma epidemia de cólera -introduzida pelos próprios capacetes azuis do Nepal- que matou mais de 10 mil pessoas e em outubro do ano passado o furacão Matthew deixou mais 550 vítimas fatais.
Benefício para quem? 
A Minustah favoreceu um treinamento de ponta para os mais de 37.000 soldados brasileiros que passaram pela ilha ao longo desses 13 anos, quando contabilizou apenas 27 baixas, a maioria devido ao terremoto. A experiência dos soldados que instalaram quartéis nos principais bairros de Porto Príncipe foram o embrião das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) implantadas nas favelas do Rio de Janeiro na última década. 
A liderança da Minustah também serve de credencial para a futura candidatura do Brasil a novas missões de paz em outras partes do mundo. Para o doutor em Relações Internacionais e representante especial da OEA no Haiti entre 2009 e 2011, Ricardo Seitenfus, a Minustah “foi muito mais importante para o Brasil do que para o Haiti”. 
Além de aproximar o Brasil de seus parceiros regionais, a missão enviada durante o primeiro governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva funcionou “como um cartão de visita da diplomacia brasileira”, afirmou Seitenfus em entrevista à AFP. Apesar dos benefícios trazidos para o Brasil, a presença estrangeira na ex-colônia francesa não deveria ter se estendido além de 2010, opina o especialista. 
“O Haiti precisava de uma pequena e curta missão de paz, porque não tinha problema de guerra civil, não tinha possibilidades de genocídio, de conflitos religiosos, raciais”, avalia. “O problema do Haiti era pura e exclusivamente de segurança pública, que devia ser vinculado muito mais a uma inteligência policial e a uma ação policial do que a uma intervenção militar”, explica. 
A introdução do cólera e os escândalos sexuais acabaram manchando a atuação dos capacetes azuis, que, segundo Seitenfus, deveriam ter sido substituídos depois do terremoto por uma operação focada no desenvolvimento econômico. 
E agora? 
Quando os soldados estrangeiros partirem, no dia 15 de outubro, a ONU destacará uma nova missão chamada Missão das Nações Unidas para o apoio da justiça no Haiti (Minujusth). Esta nova força será encarregada de formar, ao longo de dois anos, os agentes da polícia nacional haitiana e contará com cerca de 1.275 policiais internacionais.
Profissionalizar seus policiais é um aspecto chave para este país, que desmobilizou seu exército em 1995 para afastar a ameaça de um novo golpe militar. A Polícia Nacional do Haiti (PNH), criada neste ano, conta atualmente com 13 mil agentes, um número insuficiente para garantir a segurança de cerca de 11 milhões de habitantes.
Após dois anos de crise eleitoral, o Haiti conseguiu renovar a totalidade de seu quadro político, mas a situação da ilha continua sendo preocupante: ostenta o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das Américas, com mais de 70% das moradias sem saneamento básico e 40% da população analfabeta. 
Com altos e baixos, Brasil cumpre missão militar no Haiti
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