Combinação de remédios reduz em 61% a incidência de gripe em idosos

O envelhecimento faz com que o corpo humano não consiga se defender com força total contra problemas de saúde comuns, como a gripe. Frágeis, os idosos sofrem mais com infecções respiratórias, uma das maiores causas de mortalidade na terceira idade. Em busca de solução para o problema, pesquisadores britânicos testaram dois medicamentos que reforçam o sistema imunológico em voluntários com ao menos 65 anos. A terapia combinada obteve efeitos positivos: reduziu a incidência de infecções. Resultados do trabalho foram publicados na última edição da revista Science Translational Medicine.

Pesquisas anteriores demonstraram que a inibição da proteína TORC1 — ligada ao envelhecimento das células — impacta na longevidade e no sistema imunológico de camundongos e outros animais. “A abordagem prolongou a expectativa de vida e melhorou a saúde em diversas espécies, incluindo vermes, moscas e ratos. Em nossa pesquisa, nos decidimos analisar esse mecanismo em humanos”, explica ao Correio Joan Mannick, uma das autoras do estudo e cientista do Instituto de pesquisa Biomedica Novartis, no Reino Unido.

A equipe analisou 264 voluntários saudáveis e com mais de 65 anos, que foram divididos em quatro grupos. Três receberam doses diferentes de RAD001 ou BEZ235, dois inibidores de TORC1, durante seis semanas. Um grupo não foi submetido à intervenção e funcionou como placebo (Veja infografia). Os cientistas descobriram que os idosos que receberam os dois inibidores registraram menor incidência na ocorrência de infecções durante um ano (média de 1,49 infecção por pessoa), contado após o início do tratamento. A média é 61% menor que a do grupo de controle (2,41 infecções por pessoa).

Os pesquisadores também destacaram que os voluntários tratados tiveram uma resposta imunitária melhor ao receber uma vacina contra a gripe, administrada duas semanas após a terapia experimental. “Nós mostramos que os inibidores da proteína TORC1 regulam os sistemas de defesa antiviral e diminuem a percentagem de linfócitos (células de defesa) que estão ‘esgotados’, algo positivo para o sistema imunológico. Também é provável que haja efeitos adicionais desses inibidores no envelhecimento do sistema imune, mas ainda temos que descobrir futuramente”, detalha Mannick.

A intenção dos investigadores é começar a estudar por quanto tempo os efeitos benéficos da terapia duram. Com isso, acreditam, poderão determinar os mecanismos responsáveis pelas menores taxas de infecção. “No momento, estamos fazendo outro ensaio clínico para garantir que esses resultados podem repetir. Também planejamos estudar os efeitos dos inibidores de TORC1 em outras doenças relacionadas ao envelhecimento”, adianta a autora.

Obstáculos

Priscilla Mussi, coordenadora de Geriatria do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), ressalta que aumentar o tempo de vida de idosos e com mais qualidade, como buscam os pesquisadores britânicos, é uma estratégia de grande impacto social.  “Essa interferência pode fazer com que essa parte da população sofra menos com as infecções respiratórias, que são a quarta maior causa de óbitos de idosos mundialmente. No Brasil, a situação é ainda mais severa. Elas oscilam entre a primeira e a segunda causa de mortes de idosos”, diz.

A médica pondera que o custo pode ser um possível obstáculo para o uso da abordagem. “A associação de imunobiológicos mostrou-se positiva, mas esses remédios são extremamente dispendiosos, o que dificulta a incorporação deles em um sistema público de saúde. Um ponto positivo é que os cientistas usaram doses extremamente baixas, o que, talvez, possa fazer diferença”, diz.

Para Mussi, uma análise mais ampla dos efeitos do tratamento experimental também é necessária. “Seria interessante enxergar esse efeito em populações maiores, pois, dessa forma, temos uma noção melhor dos efeitos colaterais, inclusive da diarreia, que foi constatada pelos pesquisadores e pode provocar grandes danos aos idosos. Eles se desidratam e acabam correndo outros riscos graves.”

“Essa interferência pode fazer com que essa parte da população sofra menos com as infecções respiratórias, que são a quarta maior causa de óbitos de idosos mundialmente”

Priscilla Mussi, coordenadora de Geriatria do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia

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