Conferência do Clima termina sem definir pontos-chave para Acordo de Paris

AFP / PATRIK STOLLARZ Crianças participaram da abertura da conferência, que durou duas semanas, em Bonn: sob o impacto da saída dos Estados Unidos

Com poucos avanços para a implementação do Acordo de Paris, a 23ª Conferência do Clima das Nações Unidas (COP 23), que se encerrou ontem em Bonn, na Alemanha, deixou para 2018 um tema central para os avanços na contenção das emissões de gases de efeito estufa. Assunto espinhoso nas mesas de negociação, os fundos de financiamento para mitigação e pesquisa de novas tecnologias foi adiado para a próxima COP, que será realizada na Polônia. Em um evento que começou com o espírito da talanoa, palavra do vocabulário fiji que significa diálogo, os países ricos e em desenvolvimento, mais uma vez, se negaram a aprofundar o debate sobre quem tem de pagar a conta do aquecimento do planeta.
O problema é que há pouco tempo para se chegar a um acordo sobre essa questão. Os relatórios apresentados durante a COP 23 indicam que o planeta está no caminho de atingir 3ºC acima do registrado na época da Revolução Industrial. Para evitar uma catástrofe — por exemplo, países insulares como as Ilhas Fiji, que presidiram a conferência, serem engolidos pelo oceano —, foi definido, em Paris, que as nações signatárias definiriam metas individuais, revistas periodicamente, que convergissem para um objetivo: limitar, até 2020, o aumento da temperatura a no máximo 2ºC e, desejavelmente, abaixo de 1,5ºC.

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A conferência de Bonn, considerada intermediária no processo de consolidação de Paris, começou a rascunhar o livro de regras, documento que define como as metas da histórica COP 21 serão colocadas em prática. O restante do texto deverá ser fechado na Polônia, quando os 196 países signatários terão de apresentar a primeira revisão dos compromissos levados à capital francesa.

“A COP 23 começou com o lema ‘mais longe, mais rápido, juntos’. Conseguiu entregar o ‘juntos’, o que é melhor que nada, mas não foi nem longe, nem rápido. Todas as expectativas agora ficam por conta da COP 24, na Polônia, no ano que vem. O risco disso é enorme”, comenta André Ferretti, gerente de Estratégias de Conservação da Fundação Grupo Boticário e coordenador-geral do Observatório do Clima (OE). “Bonn cumpriu a sua promessa, mas não atendeu às necessidades do planeta. Previa-se uma COP técnica, desinteressante, e foi exatamente isso. O processo foi resgatado de uma possível reabertura da fissura entre ricos e pobres países, mas, infelizmente, a atmosfera não se preocupa com o processo”, afirma Carlos Rittl, secretário-executivo do OE.
A postura dos Estados Unidos, que anunciaram a retirada do Acordo e, a partir de novembro de 2020, não estarão mais comprometidos com o documento, foi um balde de água fria nas negociações. “Todos nós dos países Basic deixamos claro a nossa decepção”, disse, em Bonn, o chefe negociador brasileiro, José Antônio Marcondes, referindo-se ao grupo dos recém-industrializados Brasil, África do Sul, Índia e China. Citada pela agência France-Presse, a chanceler equatoriana María Fernanda Espinosa alertou sobre “a falta de progresso em temas financeiros, a falta de vontade de certos países e a aplicação de medidas unilaterais”. Também à AFP um diplomata europeu que não quis se identificar afirmou que nunca tinha visto “uma COP com um índice de adrenalina tão baixo”. 

Avanço e constrangimento

Mas Bonn não foi apenas decepção. Em um esforço para compensar a ausência norte-americana do diálogo, Canadá e Inglaterra lideraram um esforço que concentrou 20 países e alguns estados norte-americanos, comprometidos a abandonar o carvão como fonte de energia na próxima década. Enquanto a Aliança para o Abandono do Carvão arrancou aplausos para essas nações, o Brasil recebeu o “prêmio fóssil do dia”, uma crítica da rede de ONGs Climate Action Network.
A “honraria” se deveu à Medida Provisória 795, em discussão no Congresso Nacional, que vai aumentar os subsídios à indústria do petróleo. Segundo um levantamento da assessoria legislativa da Câmara dos Deputados amplamente divulgado na COP, em 25 anos, isso significaria uma renúncia de R$ 1 trilhão, apenas com o pré-sal. Para aumentar o constrangimento, momentos antes do “fóssil do dia”, o ministro do Meio Ambiente e chefe da delegação brasileira, Sarney Filho, havia apresentado a candidatura brasileira para sediar a COP de 2019.
Agora, a expectativa é de que o livro de regras seja enxuto para se chegar à Polônia com um documento mais pontual. “Os resultados modestos das negociações deste ano aumentam as exigências para os países. O diálogo talanoa intensificará seus esforços no próximo ano, alternando o mecanismo de ambição de Paris”, opina Camila Born, consultora sênior de políticas do think tank sobre mudanças climáticas E3G. “Não podemos esquecer que ainda há uma lacuna muito grande entre os compromissos atuais e o que é necessário para entrar na rota do 1,5 ºC. Precisamos de mais ambição nas negociações e muito mais ação prática nos países, onde as emissões ocorrem. O Brasil, em especial, continua tomando decisões políticas que vão na contramão dos objetivos do Acordo de Paris”, diz Maurício Voivodic, diretor executivo do WWF Brasil.

O que está em jogo

Veja por que é urgente colocar em prática o Acordo de Paris
» Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), 2017 deve estar entre os três anos mais quentes desde que se começou a registrar as temperaturas, em 1880, e ser o mais quente na ausência do fenômeno El Niño
» Em 2015, o aumento médio da temperatura planetária chegou a 1ºC em relação aos níveis pré-industriais
» No Ártico, a temperatura na superfície terrestre atingiu em 2015 os níveis recordistas de 2007 e 2011, com um aumento de 2,8°C em relação ao início do século 20
» As emissões de CO2,o principal gás do efeito estufa, ligadas à indústria e à queima de energias fósseis devem aumentar 2% em 2017 em relação a 2016 e atingir um recorde de 36,8 bilhões de toneladas, segundo balanço do Global Carbon Project
» As concentrações dos três principais gases do efeito estufa (dióxido de carbono, metano e óxido de nitrogênio) atingiram novos recordes em 2016
» O nível dos oceanos continua a subir cerca de 3,3mm por ano, e esse fenômeno parece se acelerar: o nível do mar aumentou de 25% a 30% mais rápido entre 2004 e 2015 em relação a 1993-2004
» A Groenlândia perdeu trilhões de toneladas de gelo entre 2003 e 2013
» Entre as 8.688 espécies em risco ou quase ameaçadas, 19% (1.688) são diretamente afetadas pelo aquecimento global, devido às temperaturas e aos fenômenos climáticos extremos
» Um aumento na temperatura entre 3ºC e 5°C pode transformar a Amazônia em savana
Conferência do Clima termina sem definir pontos-chave para Acordo de Paris
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