Desencanto entre Donald Trump e empresários cresce nos EUA

JIM WATSON / AFP Trump responde a perguntas de jornalistas após protestos em Charlottesville
A lua de mel entre Donald Trump e o mundo empresarial foi interrompida após a reação considerada inadequada do presidente americano à violência em Charlottesville, o que incitou grandes empresários a abandonarem os conselhos de assessoria ao mandatário.
A eleição, há nove meses, de um empresário para ocupar a Casa Branca suscitou o entusiasmo de diversos executivos, mas quando Trump colocou no mesmo nível militantes de extrema-direita e contra-manifestantes nos enfrentamentos que causaram a morte de uma mulher no sábado, na Virgínia, alguns deles decidiram virar-lhe as costas.
O CEO do gigante farmacêutica americana Merck, Kenneth Frazier, deu início à evasão, deixando nesta segunda-feira o Conselho de Indústria americano.
Ele foi seguido rapidamente por Kevin Plank, presidente da marca de artigos de moda esportivos Under Armour, e por Brian Krzanich, presidente do gigante de chips informáticos Intel.

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Scott Paul, presidente da Aliança para a indústria americana, os seguiu nesta terça-feira, explicando simplesmente no Twitter que: “É o que tem que ser feito”.

“Suspeito que outros empresários também quiseram protestar saindo ou se posicionando publicamente, mas estão presos”, avalia o economista Joel Naroff: “Por um lado, devem maximizar a rentabilidade dos acionistas, e por outro, não podem se manter indiferentes às implicações sociais de suas decisões, ainda que seja só por seus funcionários”.
O presidente do principal sindicato de trabalhadores dos Estados Unidos também renunciou nesta terça-feira, afirmando que a resposta do presidente americano à violência de supremacistas brancos em Charlottesville (Virgínia) significa que ele tolera o “preconceito e o terrorismo doméstico”.
“Não podemos integrar o conselho de um presidente que tolera o preconceito e o terrorismo doméstico”, disse Richard Trumka, presidente do AFL-CIO, em um comunicado no qual anunciou sua renúncia imediata do painel.
“Os comentários de hoje do presidente Trump refutam as declarações forçadas de ontem sobre a KKK [Ku Klux Klan] e os neonazistas. Nós precisamos renunciar em nome da classe trabalhadora americana, que rejeita todas as noções de legitimidade destes grupos preconceituosos”, acrescentou Trumka.
Mais cedo, Trump reagiu agressivamente a perguntas de jornalistas sobre a demora de sua reação ao comício de supremacistas brancos no fim de semana – e que terminou em um banho de sangue. Segundo o presidente americano, houve “culpa dos dois lados 

Executivos abandonam 

Notórios dirigentes já se expressaram publicamente contra Donald Trump. 
Em janeiro passado, vários deles denunciaram um controverso decreto que limitava a migração de alguns cidadãos aos Estados Unidos, entre eles, o presidente da Apple, Tim Cook, e o da Google, Sundar Pichai. 
Em junho, o midiático dono da construtora de carros elétricos Tesla, Elon Musk, e o da Disney, Bob Iger, abandonaram vários comitês assessores de Trump, após suas decisão de deixar o Acordo de Paris sobre o clima.
Para justificar sua recusa em seguir servindo ao presidente, Frazier, um dos poucos presidentes negros de uma grande empresa americana, destacou que os dirigentes dos Estados Unidos deviam honrar os valores fundamentais do país “rechaçando claramente as expressões de ódio, intolerância e supremacia, que vão contra o ideal americano de que todas as pessoas são criadas iguais”.
Trump parece não ter apreciado os abandonos.
“Para cada executivo que abandona o Conselho, tenho vários para assumir seu lugar. Torcedores não deveriam ter vindo. EMPREGOS!”, tuitou o presidente nesta terça. 
Na véspera, ele atacou diretamente Kenneth Frazier: “Assim terá mais tempo para se dedicar a reduzir o preço totalmente abusivo dos medicamentos”.
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