Exame de imagem mostra atividade cerebral de pessoas em estado vegetativo

Valdo Virgo/CB/D.A Press

Quando uma pessoa machuca a cabeça e sofre um trauma severo, é fundamental determinar, o mais rápido possível, seu nível de consciência e de função cerebral. Essa detecção vai garantir o processo de reabilitação adequado. Porém, estudos indicam que as avaliações tradicionais feitas à beira do leito costumam induzir ao erro, prejudicando as chances de recuperação. Agora, uma pesquisa publicada na revista Brain mostra que dois exames não-invasivos — a ressonância magnética funcional e o eletroencefalograma — podem indicar, com alto índice de acurácia, o real estado do paciente.

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Brian Edlow, pesquisador do Centro de Neurotecnologia e Neurorecuperação do Hospital Geral de Massachusetts e autor correspondente do artigo, explica que, atualmente, a avaliação padrão do nível de consciência de uma pessoa nesse estado inclui verificações comportamentais de alerta e consciência. “Para o teste de alerta, o examinador verifica se o paciente pode abrir os olhos espontaneamente, em resposta a um estímulo, ou não. Para avaliar a consciência, ele usa uma variedade de técnicas, incluindo um exame motor que verifica o movimento proposital, e um teste ocular para o rastreamento do olhar”, explica.

O problema, destaca o especialista, é que os exames comportamentais podem sugerir, de forma errada, que o paciente está inconsciente. Isso, por razões diversas, diz. “Por exemplo, o paciente pode não ser capaz de se expressar falando ou escrevendo, pode ter fraqueza no braço e na perna que impedem o movimento em resposta a um comando. Ele pode estar recebendo medicamentos sedativos, ou o examinador clínico pode ter interpretado erroneamente um movimento proposital, confundindo com reflexo”, afirma. De acordo com Edlow, estudos prévios indicam que essas limitações levam a uma taxa de diagnóstico errado de nada menos que 40%.

Para testar um outro método diagnóstico, os pesquisadores desenharam um estudo com 16 pacientes internados nas unidades de terapia intensivas (UTIs) do Hospital Geral de Massachusetts, nos Estados Unidos, depois de sofrerem traumatismo craniano severo. Desses, oito conseguiam responder a estímulos de linguagem, três foram classificados como minimamente conscientes e sem resposta à linguagem, três considerados em estado vegetativo e dois em coma. Logo que se encontravam estáveis, eles foram submetidos à ressonância magnética. Já a leitura do eletroencefalograma ocorreu pouco depois da internação. Além deles, 16 indivíduos saudáveis entraram no estudo, como grupo de controle.

Testes

Os exames foram feitos sob três condições experimentais. Para avaliar uma possível incompatibilidade entre a habilidade dos participantes de se imaginar desempenhando uma tarefa e, de fato, conseguirem se expressar fisicamente, o que se denomina dissociação cognitiva-motora, eles deveriam se visualizar fechando e abrindo a mão direita, enquanto a ressonância magnética funcional e o eletroencefalograma eram executados.

Como se sabe que algumas áreas do cérebro podem responder a sons mesmo quando um indivíduo está dormindo ou sedado, os pacientes também foram expostos a breves gravações de linguagem falada e música, durante os exames. Esses testes tinham como objetivo detectar atividade em áreas do cérebro que são parte do córtex superior, que interpreta sinais simples processados pelo córtex primário. Portanto, a avaliação visava saber se as vítimas de trauma craniano não apenas detectavam, mas reconheciam potencialmente o som.

Dos oito pacientes que, no exame cognitivo tradicional, foram classificados como incapazes de responder a estímulo de linguagem, quatro exibiram evidências de consciência no teste de dissociação cognitiva-motora, incluindo três classificados, originalmente, como vegetativos. Em dois outros participantes, a atividade no córtex parietal superior foi identificada tanto em resposta à linguagem quanto à música. Embora a ativação dessa região não prove que uma pessoa está consciente, Eldow observa que encontrar uma resposta nessas estruturas pode ter implicações para uma eventual recuperação do paciente.

“Essas descobertas são importantes porque a detecção precoce da consciência e da função cerebral numa UTI pode permitir às famílias tomarem decisões mais informadas sobre a continuação dos tratamentos que permitam que  continuem vivas”, diz o pesquisador. “Além disso, já que a recuperação precoce da consciência está associada a melhores prognósticos de longo termo, a ressonância magnética funcional e o eletroencefalograma poderia ajudar os pacientes a ter acesso aos cuidados de reabilitação uma vez que saiam da UTI.”

 
Técnica acorda pacientes

Brian Edlow, pesquisador do Centro de Neurotecnologia e Neurorecuperação do Hospital Geral de Massachusetts, destaca que, no estudo, nem a ressonância nem o eletroencefalograma detectaram sinais de consciência ou de reposta do córtex parietal superior em pacientes em coma. “Da mesma forma, pelo que sei, nenhum estudo prévio mostrou que esses estudos possam detectar evidência de consciência em pacientes cujo exame neurológico à beira do leito sugeriu um estado de coma”, diz. “No nosso estudo e em anteriores, esses exames detectaram consciência em pacientes cujo teste neurológico havia sugerido estado vegetativo ou nível mínimo de consciência”, esclarece o pesquisador.

Ele antecipa que, baseado nos resultados desse pequeno estudo inicial, a equipe do Laboratório de Neuroimagem do Coma e da Consciência no Hospital Geral de Massachusetts está trabalhando para melhorar a acurácia da ressonância e do eletroencefalograma. “Planejamos lançar um estudo maior de acompanhamento em um futuro próximo.”

Reavaliação

Neurocirurgião do Hospital Sírio-Libanês e membro da Academia Brasileira de Neurologia, Antônio Araújo avalia que, embora o trabalho do colega norte-americano tenha incluído um número pequeno de pessoas, ele abre perspectivas de reavaliação dos pacientes, auxiliando na tomada de decisões. De acordo com Araújo, o artigo se soma a outros estudos recentes que evidenciam um importante papel dos exames de imagem para investigar e até mesmo tratar indivíduos em estado vegetativo. Ele cita uma pesquisa publicada em junho no Journal of Neurosurgery em que, guiados pelos resultados de um pet scan (teste de imagem que mostra a taxa de captação de glicose), médicos da Croácia e dos EUA conseguiram acordar pacientes vegetativos.

Ao identificar alguma atividade no tronco cerebral de 14 pessoas que se encontravam nesse estado, os pesquisadores inseriram um eletrodo no tálamo e foram capazes de acordar quatro delas. “O tálamo é uma estrutura fundamental que funciona como um interruptor, ligando e desligando o cérebro”, explica Antônio Araújo. “Esses pacientes eram pessoas sem nenhuma perspectiva de retornar, isso foi absolutamente impressionante. Hoje, temos um entendimento maior das estruturas mais profundas do cérebro, associadas à consciência. Esses trabalhos mudam muito a neurologia e a própria comunidade científica”, avalia.  

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