Exoesqueleto é chance para crianças com sequelas de paralisia andarem só

Valdo Virgo/CB/D.A Press

Falhas na locomoção infantil são uma das sequelas da paralisia cerebral (Leia Para saber mais). Um grupo de pesquisadores norte-americanos desenvolveu um exoesqueleto — espécie de armadura robótica —  para ajudar crianças que sofrem com esse problema. O aparelho permitiu que sete jovens com o tipo displégico espástico — quando ocorre a flexão excessiva dos joelhos — corrigissem a marcha de caminhada. Detalhada na edição desta semana da revista Science Translational Medicine, a intervenção poderá beneficiar também pessoas com outros tipos de complicações que dificultam os movimentos das pernas.

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A tecnologia foi construída para funcionar em sinergia com os próprios músculos das crianças, a fim de ajudá-las a alcançar um padrão de locomoção mais eficiente. O aparelho faz com que a pessoa consiga estender a perna quando necessário. “Nosso exoesqueleto usa sensores para rastrear, em tempo real, o movimento dos membros do usuário enquanto ele caminha. Usamos as informações dos sensores para fornecer assistência de extensão motorizada à articulação do joelho no momento apropriado do ciclo de caminhada. A quantidade de assistência foi personalizada para cada indivíduo”, detalha ao Correio Thomas Bulea, pesquisador do Departamento de Medicina de Reabilitação do Instituto Nacional de Saúde, nos Estados Unidos.

Em testes de laboratório, o aparelho permitiu que sete crianças com paralisia cerebral e dificuldades para caminhar conseguissem andar sem o apoio de terapeutas ou de outras tecnologias auxiliares de mobilidade. Seis dos sete jovens fizeram isso na primeira sessão de treino (que durou entre duas e três horas) e nenhum deles caiu enquanto usava o dispositivo. Após seis sessões, os exoesqueletos conferiram melhorias na postura comparáveis, ou até melhores, aos resultados obtidos em cirurgias corretivas.

Os autores acreditam que sessões de treinamento adicionais levarão a ganhos terapêuticos aprimorados. “Nossos resultados mostram que o exoesqueleto reduziu o problema, mas não o eliminou completamente. Um desafio-chave que ainda temos pela frente é traduzir a postura melhorada observada ao caminhar com o exoesqueleto para o caminhar sem o aparelho”, avalia  Bulea.

A etapa seguinte da investigação consiste em utilizar o exoesqueleto em um número maior de crianças e por mais tempo. “O próximo passo é realizar um estudo de intervenção de longo prazo em crianças com paralisia cerebral para avaliar a eficácia da reabilitação da marcha, de modo que a caminhada seja melhorada sem o exoesqueleto. Outro objetivo é avaliar essa tecnologia em pacientes com deficits motores mais severos de paralisia cerebral”, adianta o autor.

Estender o dispositivo a outros tipos de pacientes também é um dos desafios do grupo. “Também planejamos explorar a aplicação desse tipo de assistência do exoesqueleto a outras populações ambulatoriais em risco de mobilidade em declínio, como os que sofrem com a distrofia muscular, espinha bífida ou lesão incompleta da medula espinhal”, conta Bulea.

Autonomia 

O cientista explica que o exoesqueleto desenvolvido por sua equipe orienta os membros do usuário sem uma trajetória pré-definida, o que ocorre com outros dispositivos criados com a mesma função. “Nosso aparelho fornece rajadas rápidas de assistência em determinados intervalos ao longo do ciclo de marcha. Não determina um padrão de movimento particular para a criança seguir, permitindo que ela mantenha o controle sobre a própria caminhada”, explica.

Segundo o cientista, esse tipo de assistência aumenta a extensão do joelho durante a caminhada, sem reduzir a própria atividade muscular do usuário, indicando que os participantes do experimento trabalham com o exoesqueleto, em vez de descarregar a tarefa de endireitar a perna para ele.

Cláudia Barata Ribeiro, neurologista do Hospital Santa Lúcia em Brasília e presidente regional da Associação Brasileira de Medicina Física e Reabilitação, avalia que a pesquisa se destaca por ter criado uma maneira de auxílio mais autônoma. “No tipo displégico espástico, a criança anda com o joelho e o quadril bem dobrados, bastante curvada. E esse aparelho, que foi feito sob medida, deu a força de extensão necessária para corrigir essas falhas em momentos diferentes da marcha, mas um dos pontos mais interessantes é o fato de que a criança não ficou dependente da força exercida pelo aparelho. Ela não deixou que a máquina trabalhasse sozinha, e isso faz com que ela não se atrapalhe depois”, justifica.

Barata ressalta que o desafio dos cientistas será otimizar a melhora detectada no experimento. “Ao tirar o aparelho depois das sessões, a melhora se manterá, mas por quanto tempo? Eles não corrigiram completamente a falha, mas pode ser que isso ocorra com o uso prolongado. Outra opção seria usar esse aparelho como um auxiliar de treino para a fisioterapia”, opina a neurologista.

Para saber mais

Complicações a longo prazo
A paralisia cerebral é causada por lesões cerebrais que podem ocorrer durante a gravidez, no parto ou no pós-parto. Problemas de saúde como a meningite, a encefalite e até o zika podem provocá-la. Os pacientes sofrem diferentes distúrbios de movimento, como a paralisação de um lado do corpo, comum em pessoas que sofreram um acidente vascular cerebral (AVC).

Trata-se da deficiência física mais comum na infância — ocorre em aproximadamente 2,1 por 1.000 nascidos vivos. Cerca de 50% das crianças com paralisia cerebral perdem a capacidade de caminhar na idade adulta e, mesmo que suas funções neurológicas permaneçam estáveis quando crescem, os músculos de alguns pacientes são incapazes de manter a força e a resistência necessárias para se mover.

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