“Há uma fissura entre os militares”, diz oficial perseguido por Maduro

Em 4 de fevereiro de 1992, o vice-almirante Mario Iván Carratú Molina, chefe da Casa Militar da Venezuela durante o governo de Carlos Andrés Pérez, ajudou a capturar o então golpista Hugo Chávez. No ano passado, os militares que  invadiram o Forte de Paramacay, em Valencia (estado de Carabobo), o consultaram sobre o plano de ação. Em entrevista exclusiva ao Correio, o militar retirado, exilado em Miami há quase três anos e perseguido político do governo de Nicolás Maduro, falou sobre a rebelião dentro das Forças Armadas venezuelanas. 

Como o senhor analisa a rebelião militar na 41ª Brigada Blindada de Valencia?
O que ocorre na Venezuela é uma reação natural dentro do setor militar para pegar em armas e defender os cidadãos dos grupos armados equipados pelos governos venezuelano e cubano no país. Os militares decidiram tomar um quartel e roubar as armas para operar, futuramente, contra os grupos de apoio civil e militar do governo. Esta é a motivação por trás do evento militar de ontem (domingo), o qual destruiu o mito da Inteligência cubana na Venezuela. Esta unidade militar era a mais importante e a mais forte de todas as Forças Armadas Nacionais Bolivarianas. Cerca de 30 homens entraram no local, tomaram o parque militar e levaram fuzis e munições. No momento da retirada, houve um enfrentamento que deixou dois mortos e dois feridos do grupo do governo. Não era um golpe militar, nem uma reação em cadeia.

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Mas existem fissuras dentro das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas?
Sim, há uma fissura muito importante entre os oficiais de média e alta patente e os generais e almirantes que comandam a instituição. Estes últimos são comunistas, representam o setor castrista, e preservam o controle territorial e militar do país a favor do presidente Nicolás Maduro. Essa fissura militar não se pode desprezar, pois, por um lado, não existe um civil que possa assumir o país. Por outro lado, os militares nada querem com partidos políticos. Durante 18 anos, depois de negociarem e de trabalharem a favor do governo, nada obtiveram em troca. A fissura existe, mas não vejo de imediato uma reação militar que derrube o governo. O mais importante é que a sociedade venezuelana pede uma intervenção das Forças Armadas. Isso ocorre porque os cidadãos perderam a esperança de que o totalitarismo renuncie ao governo. É uma situação política nunca vista na Venezuela, a qual poderia produzir uma convergência de forças civis e militares, excluindo os partidos políticos. Na Venezuela, há 69 partidos políticos, e isso inibe qualquer acordo para conduzir uma transição.
O fim de Nicolás Maduro como presidente se aproxima?
Há um crescente movimento chamado de “resistência civil organizada” para depor Maduro, sem importar o dano físico aos cidadãos venezuelanos. Por isso, pedem apoio militar, pois estão decididos a atuar. Se não houver garantias de que o governo será substituído, os cidadãos tomarão as ruas e veremos uma violência jamais vista na América Latina. 
Como vê o fato de que boa parte das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas ainda mantêm obediência ao presidente, mesmo com tantas mortes e com o caos na nação?
Há uma cúpula militar de 2 mil militares que são afeitos ao regime. Não por serem comunistas, mas por estarem fazendo uso indevido do erário nacional. Eles estão roubando e protegem a si mesmos. Se Maduro deixar o poder, irão a julgamento. A Guarda Nacional Bolivariana é um corpo repressivo, mas já foi a transição entre a força civil e a força armada, em caso de distúrbios públicos. Agora, passou à máxima autoridade militar e civil de repressão. Nela, há membros das Farc, de Cuba e, talvez, do Irã e da Síria. Estão sendo treinados para reprimir. 
Qual a solução para a crise política na Venezuela?
Na Venezuela não há solução, mas um desenlace: a saída do governo por pressão social. Pode ser muito curta ou muito violenta, mas a sociedade não deseja mais esse governo e, por isso, rechaça os grupos políticos opositores, que negociam com o governo. Há uma ruptura entre o cidadão e o poder político. 
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