Ingestão exagerada de gordura inflama o cérebro e o corpo

Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press O experimento foi feito com fast food, que resultou em ganho de peso de até 400%. Com os tratamentos testados, a queda na ingestão de comida foi de 15%
Células do sistema imunológico situadas no cérebro podem desencadear a compulsão alimentar e o ganho de peso em resposta a dietas ricas em gordura, segundo um estudo da Universidade da Califórnia em San Francisco (UCSF) e da Universidade do Centro Médico Washington, ambas nos Estados Unidos. O estudo, detalhado nesta semana na revista Cell Metabolism, foi feito ainda com ratos, mas, segundo os autores, pode abrir a possibilidade de desenvolvimento de medicamentos mais efetivos contra a obesidade.
Neurônios dentro de uma região na base do cérebro conhecida como hipotálamo, que desempenha um papel crucial no comportamento alimentar, há tempos são um alvo para o desenvolvimento de drogas para tratar o excesso de peso. Mas o novo estudo sugere que estruturas chamadas micróglia também devam ser consideradas para tratamentos que evitem os muitos efeitos colaterais das drogas em uso atualmente.
“As micróglias não são neurônios, mas constituem de 10% a 15% das células do cérebro”, explica Suneil Koliwad, professor-assistente do Centro de Diabetes da UCSF e coautor sênior do estudo. “Elas representam uma inexplorada e totalmente nova forma de potencialmente mitigar a obesidade e suas consequências à saúde”, diz.

Saiba mais

O hipotálamo mediobasal contém grupos-chave de neurônios que regulam a ingestão de alimentos e o gasto energético. Normalmente, essa região tenta combinar o número de calorias consumidas na comida com nossa necessidade de energia para manter um peso saudável. Mas pesquisas anteriores mostraram que dietas gordurosas podem, drasticamente, jogar no lixo esse mecanismo.

No novo estudo, os pesquisadores alimentaram ratos com uma dieta de fast food, rica em gordura, por quatro semanas. Isso provocou a expansão no número de micróglias, que desencadearam inflamações locais dentro do hipotálamo mediobasal. Os animais alimentados com esse regime também comeram mais, queimaram menos calorias e ganharam mais peso, comparado aos que ingeriam alimentos saudáveis e de baixo teor de gordura.

Intervenções

Para saber se as micróglias excessivas eram a causa do consumo excessivo de alimentos e da obesidade nesses ratos, a equipe de Koliwad deu aos animais uma droga experimental, a PLX5622, que reduziu o número dessas células. Os ratos tratados comeram 15% menos e ganharam 20% menos peso que os demais que seguiam a mesma dieta.
Já o time de Washington, liderado por Joshua Thaler, manipulou geneticamente um grupo de ratos para evitar que a micróglia ativasse respostas inflamatórias. Os pesquisadores descobriram que esses animais ingeriam 15% menos alimentos e ganharam 40% menos peso, mesmo em um regime alimentar rico em gordura. Isso sugere que a capacidade inflamatória da micróglia é responsável pelo ganho de peso e pelo excesso de ingestão de alimentos.
Para confirmar a descoberta, os pesquisadores da UCSF desenvolveram uma cepa de animais geneticamente modificados nos quais eles podiam usar uma droga para ativar a resposta inflamatória da micróglia. Os cientistas descobriram que mesmo os ratos alimentados com uma dieta saudável e com pouca gordura comiam 33% mais e gastavam 12% menos calorias, o que levou a um aumento de peso de 400% devido à inflamação no hipotálamo. “Estamos confiantes em dizer, a partir desses experimentos, que a ativação inflamatória da micróglia não apenas é necessária para as dietas ricas em gordura induzirem à obesidade, mas suficientes para levar o hipotálamo a alterar sua regulação no balanço energético, resultando no excesso de ganho de peso”, diz Thaler.

Em humanos

De acordo com os pesquisadores, é possível que, em breve, se saiba se, em humanos, eliminar a micróglia evite o ganho de peso. Uma droga atualmente em testes para tratamento de leucemias, tumores sólidos e formas raras de artrite tem o mesmo mecanismo biológico da PLX522, a substância experimental usada pela equipe da UCSF para reduzir o número dessas células no cérebro. Koliwad diz que se pode investigar, por exemplo, se os pacientes de câncer que participam do ensaio clínico tenham algum benefício em relação ao peso corporal.
No estudo, os pesquisadores também relataram que uma dieta rica em gordura estimula a micróglia a ativar células adicionais do sistema imunológico. Recrutadas, elas viajam pela corrente sanguínea e se infiltram no cérebro. Uma vez lá, acabam aumentando a resposta inflamatória, impactando no balanço energético. Segundo os autores, é possível que o controle do consumo de comida excessivo e do ganho de peso seja feito por múltiplas abordagens imunológicas, que tenham como alvo a micróglia e as células recrutadas por elas. Agora, os pesquisadores planejam investigar como, exatamente, o consumo de alimentos ricos em gordura leva à ativação da micróglia e se há meios de intervir nesse mecanismo.
Ingestão exagerada de gordura inflama o cérebro e o corpo
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