Juiz que permitiu peça com Jesus trans cita Charlie Hebdo em decisão

Reprodução/Facebook

A decisão de um juiz de Porto Alegre, que permitiu a estreia de uma peça cuja protagonista transexual interpretaria Jesus, comparou o pedido de censura do espetáculo à censura imposta aos cartunistas da revista francesa Charlie Hebdo, assassinados por fundamentalistas religiosos do Estado Islâmico. O magistrado José Antonio Coutinho, da 2ª Vara da Fazenda Pública da cidade, ressaltou a importância da liberdade de expressão, principalmente por meio da arte, com a peça em questão, O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu. 
“Há pouco tempo, assistimos ao assassinato de cartunistas franceses da Charlie Hebdo, que satirizaram questões religiosas. Na essência, foram censurados. Censurados por expressar sua maneira de pensar. Ao Juiz não compete censurar a fé ou sua ausência. A alegada questão da sexualidade de personagens, imaginada para o espetáculo, é absolutamente irrelevante”, proferiu, na noite de terça-feira (19/9). 
O magistrado ressaltou ainda a igualdade entre todos os seres humanos e reforçou que o espetáculo deve ser respeitado, pois, ao contrário do que o autor da ação escreveu, é uma obra de arte. “Antes da estreia na capital gaúcha, [a peça] já está aflorando paixões. Ódio, parece já ter despertado. O que melhor consistiria em arte do que a obra que toca, acaricia ou fere, os sentimentos humanos?”
Com o texto de Jo Clifford, dramaturga transgênera escocesa, O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu é um monólogo interpretado pela atriz e transexual Renata Silva Carvalho, de 36 anos, que atua como Jesus. Para Coutinho, a atriz dá vida a uma figura religiosa na atualidade, ou seja, “não pratica ato ilícito nenhum. Se a ideia é de bom ou mal gosto, para mim ou para outra pessoa, pouco importa”. 
“E, sem citar um único artigo de lei, vamos garantir a liberdade de expressão dos homens, das mulheres, da dramaturga transgênero e da travesti atriz, pelo mais simples e verdadeiro motivo: porque somos todos iguais”, finalizou o juiz.   

Transfobia mata

Para Renata, que também é diretora de teatro, a decisão favorável à peça lhe trouxe esperança para acreditar em um mundo melhor. No entanto, ressalta a importância de a transexualidade ser discutida entre a população e chama atenção sobre o fundamentalismo religioso, que tentou censurar a peça mais de uma vez – e conseguiu. Em Jundiaí, ela foi proibida de atuar na cidade na última semana. 
“Ficamos muito felizes com a decisão do juiz, que deu uma baita lição para as pessoas. Ele falou sobre o preconceito, sobre a exclusão do que é considerado fora do padrão e sobre a importância da arte”, disse.   

Há um ano em cartaz e há dois anos sendo produzido, o espetáculo dividiu opiniões por onde passou. Aplausos, protestos e agressões foram comuns durante a turnê de divulgação. Segundo Renata, durante uma sessão em Taubaté, no interior de São Paulo, foram necessários quatro policiais militares para fazer a segurança dela e da produção da peça antes, durante e depois da apresentação. 

“A transfobia ainda é muito presente. Percebi isso no interior paulista e nas cidades do entorno do Distrito Federal. Mas, felizmente, para cada uma dessas pessoas ruins, tem o triplo de pessoas boas. Recebi muito amor também por onde passei”, disse. 
O Brasil é o país que mais mata transsexuais no mundo.  De acordo com o relatório divulgado pela ONG Transgender Europe (TGEu) em novembro de 2016, 868 travestis e transexuais foram mortos nos últimos oito anos. O país registrou, em números absolutos, mais que o triplo de assassinatos do segundo colocado, o México, onde foram contabilizadas 256 mortes entre janeiro de 2008 e julho de 2016.
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