Kim Jong-un apela para armas nucleares contra destituição do regime

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O ditador norte-coreano, Kim Jong-un, teria em seu poder apenas 10 armas nucleares — uma delas, testada no útimo dia 3, teria dez vezes mais potência destrutiva que a bomba lançada sobre Hiroshima (veja foto abaixo). O presidente americano, Donald Trump, possui em seu arsenal pelo menos 600 vezes mais ogivas atômicas. A disparidade parece nada incomodar Kim. Pelo contrário. O líder do regime comunista sabe que a inclusão de seu país no rol dos detentores de armas de destruição em massa pode dar a Pyongyang uma posição de vantagem para barganhas políticas e militares em uma região cercada de inimigos, como o Japão, a Coreia do Sul e os Estados Unidos, que mantêm bases nas duas nações aliadas. Ao anunciar o desejo de obter um “equilíbrio real de forças” com os EUA, Kim afirmou que o lançamento do míssil de médio alcance Hwasong-12, anteontem, “incrementou o poderio bélico nuclear” da Coreia do Norte. Especialistas consultados pelo Correio analisaram os riscos de Pyongyang provocar uma proliferação atômica na Ásia, na contramão da tendência mundial, e explicaram os motivos estratégicos pelos quais as armas nucleares são ambicionadas pelos governos.
Para Andrea Stricker, estudiosa do Instituto para a Ciência e a Segurança Internacional (em Washington), o programa nuclear de Kim pode inspirar a Coreia do Sul e o Japão a reconsiderarem o desenvolvimento do arsenal atômico. “Por isso, é importante que o compromisso defensivo de Washington se mantenha forte na região”, observa. Ela lembra que Pyongyang tem esboçado o desejo de vender a tecnologia nuclear a governos como os da Síria e do Irã, um comércio praticamente indetectável. “Seria importante que o Conselho de Segurança (CS) da ONU aprovasse nova resolução para restringir o envio de dinheiro que capacite a Coreia do Norte a reforçar os programas nuclear e de mísseis. Uma das saídas seria a suspensão da exportação de petróleo para Pyongyang”, acrescenta.
Diretor executivo do Centro James Martin para Estudos de Não Proliferação (em Washington), Leonard Spector explica que a maior parte dos países fabrica armas nucleares por enfrentarem poderosos inimigos externos e por não acreditarem em outra alternativa para confrontar tais ameaças. Ele considera improvável, no entanto, que o programa atômico de Kim leve outros países à proliferação dessas armas. “Japão e Coreia do Sul continuarão dependendo do guarda-chuva nuclear dos EUA. O desenvolvimento de armas nucleares e de sistemas relacionados, por parte de Tóquio e da Coreia do Sul, demoraria anos”, afirma.

Proteção

A russa Elena Sokova, colega de Spector e vice-diretora do mesmo centro, diz que, até 2003, a Coreia do Norte era membro do Tratado de Não Proliferação e se beneficiava de tecnologias nucleares pacíficas e de cooperação científica. “Ao abandonar o pacto, Pyongyang incursionou no caminho da construção de seu próprio programa nuclear e no aperfeiçoamento de mísseis. Em violação a resoluções do CS, fez vários ensaios atômicos e lançamentos de mísseis”, afirma. Nos últimos dois anos, os avanços do regime no setor se aceleraram rapidamente. De acordo com ela, os dois testes bem-sucedidos com mísseis intercontinentais, em julho, e o sexto ensaio nuclear, no último dia 3, sugerem que Pyongyang domina a tecnologia para o lançamento de uma ogiva totalmente funcional à Coreia do Sul, ao Japão e aos Estados Unidos.
“A Coreia do Norte buscou tal capacidade para se proteger de interferências externas e de uma possível mudança no regime. A liderança de Kim vê as armas nucleares como a única garantia contra uma intervenção militar e contra tentativas de removê-la”, analisa Sokova. A especialista diz que a invasão ao Iraque a deposição de Saddam Hussein tiveram grande papel na decisão de Pyongyang de ambicionar as armas nucleares. Ainda segundo a russa, por mais de sete décadas, desde Hiroshima e Nagasaki, tal arsenal foi creditado com efeito dissuasivo e de prevenção de conflitos entre grandes potências. “A possibilidade de um confronto nuclear entre EUA e a União Soviética, durante a crise dos mísseis cubanos, em 1962, e o subsequente esfriamento são uma demonstração de como essa dissuasão funciona”, comenta.
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