Livro reconstitui morte de diplomata e uso do Itamaraty contra brasileiros

Marcos Henrique/CB/D.A Press

Durante uma viagem a países europeus, em maio de 1970, o então arcebispo de Olinda e Recife, dom Helder Câmara, conseguiu reunir estudantes, professores e jornalistas estrangeiros, que lotaram salas e auditórios para ouvir o religioso. Nos encontros, os casos de tortura no Brasil eram denunciados de forma aberta. O detalhe é que não apenas acadêmicos e repórteres estavam interessados nas palavras de dom Helder. As reuniões passaram a ser monitoradas por funcionários brasileiros do Ministério das Relações Exteriores, servidores de alto escalão pagos pelo Estado para vigiar um homem de estrutura corporal frágil.

Telegrama trocado entre diplomatas em postos avançados no exterior e os burocratas de Brasília apresenta um discurso do religioso em Utrecht, cidade do centro da Holanda. “Segundo as autoridades brasileiras, estou cometendo um crime contra o Estado quando falo em torturas no Brasil. Para mim, porém, seria crime contra o povo brasileiro se eu me calasse”, disse dom Helder, para completar: “Se eu for por isso atirado à prisão, será a melhor propaganda para a causa que eu defendo”.
Um dos diplomatas destacados para monitorar o arcebispo foi Paulo Dionísio de Vasconcelos, segundo-secretário da Embaixada do Brasil em Haia, o protagonista do livro A morte do diplomata — um mistério arquivado pela ditadura (Tema Editorial, 205 págs, R$ 35), do jornalista Eumano Silva.
Vasconcelos foi encontrado morto dentro do carro numa das ruas de Haia, onde morava com a mulher grávida e uma filha de 2 anos. O episódio ocorreu em 4 de agosto de 1970, três meses depois das visitas de dom Helder, um personagem que ganha força no livro a partir dos próprios relatos de Vasconcelos em diários e em conversas com a esposa, Maria Coeli. O diplomata foi um dos homens assediados pela estrutura militar para monitorar o religioso durante os encontros na Holanda. E sempre deixou claro o incômodo em acompanhar os passos do arcebispo. “Dom Helder tornara-se um dos personagens mais atuantes nas denúncias dos crimes da ditadura, como tortura e morte de adversários políticos. Paulo Dionísio resistia a colaborar no monitoramento do ‘bispo vermelho’, conforme determinado pela área de informações por meio de canais internos de comunicação”, escreve Eumano no livro, que será lançado em 3 de agosto, em Brasília.
Vasconcelos, para além do glamour da carreira diplomática na Europa, era um cidadão comum, com preocupações corriqueiras de um homem de classe média alta no início dos anos 1970. E aqui está a força do livro A morte do diplomata, pois o texto mostra como a máquina da ditadura tentou — e, em vários momentos, conseguiu — engolir simples burocratas, os transformando em algozes dos próprios compatriotas no exterior. Vasconcelos deixou um diário minucioso sobre assuntos pessoais e profissionais. Num dos trechos, expõe o incômodo com o adido naval em Paris, Ezio Seize. Meses antes, o comandante havia interrogado uma oficial de chancelaria sobre supostos contatos com subversivos. “O comandante parece meio quadrado, além de ser linha-dura e anti-Juscelino”, escreveu Vasconcelos.
Num dos momentos decisivos, o diplomata foi sondado para participar, como infiltrado, de uma reunião de dom Helder. Seria uma espionagem para a comunidade de informações, como era chamado o aparato secreto dos militares. A missão não teria se completado por causa dos riscos associados: um eventual desmascaramento do diplomata ou até mesmo uma associação enviesada com o líder religioso. No diário, Vasconcelos se disse aliviado: “Estou feliz porque não foi preciso cumprir a missão policialesca que me foi atribuída”. Por mais que o trabalho de funcionários das embaixadas seja participar de eventos de interesse do país de origem, os relatos do diplomata deixam poucas dúvidas sobre o que se queria dele nas reuniões de dom Helder. Com a democratização, ficaram evidentes as ações do serviço secreto do Brasil para evitar — a partir de tentativa de destruição da imagem — que o líder religioso recebesse o Prêmio Nobel da Paz. O que nunca ficou evidente — é o que tenta mostrar o livro — foi a circunstância da morte de Vasconcelos, a mais de 9.000km de Brasília.
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