Maior caverna inundada do mundo, no México, revela ossadas da Era do Gelo

Arqueólogos que exploraram a maior caverna subaquática do mundo, recém-encontrada no México, estão maravilhados com as relíquias históricas – entre restos humanos e faunísticos de diferentes períodos da história -, encontradas durante mergulhos ao local e como a descoberta pode lançar uma nova luz sobre a antiga civilização maia. Ossadas de preguiças gigantes, elefantes e ursos antigos, além de um complexo espaço no qual os maias teriam adorado o deus do cacau, da guerra e o benfeitor dos mercadores, estão entre as descobertas no estado sulista de Quintana Roo. Veja as imagens:
Segundo os especialistas, a pesquisa, divulgada na segunda-feira (19/2) pelo Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH), mostrou que dois sistemas de cavernas, Sac Actun e Dos Ojos, estão conectados, o que determina que o complexo subaquático é o maior do planeta. O conjunto de cavidades interligadas medem cerca de 347km. No entanto, se for comprovada a conexão com outros sistemas vizinhos, o local pode ser um “monstro” de até mil quilômetros, segundo os arqueólogos.
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O Sac Actun, que em maia significa ‘Caverna Branca’, foi destacado como “um enorme polvo” de calcário e água doce, cujos tentáculos provavelmente podem conectar ao menos outros três sistemas de cavernas submarinas em Tulum. Ao longo deles foram encontrados 248 cenotes, como são identificadas as cavidades naturais; e 198 conjuntos arqueológicos, dos quais 138 parecem estar ligados à civilização maia, e ao menos dois a restos esqueletais de indivíduos pré-cerâmicos com idade mínima de 9 mil anos, além de ossos de animais que habitavam a Terra durante a última Era do Gelo. Alguns cenotes adquiriram um significado religioso particular para os maias, cujos descendentes continuam a habitar a região.
As centenas de quilômetros de passagens subterrâneas descritas pelos arqueólogos se tornaram verdadeiros túneis do tempo e guardam, entre outras coisas, a história remota e recente de Quintana Roo. “No final da Idade do Gelo, o nível da água estava a 100 metros abaixo da superfície atual. O derretimento causou o surgimento do mesmo e inundou as cavidades que estavam originalmente secas, é por isso que, no seu interior e em condições ideais, preservam-se os restos da megafauna extinta do Pleistoceno (época que começou a 2,58 milhões de anos atrás)”.

Artefatos preservados na água

O arqueólogo Guillermo de Anda Alanís, diretor do Projeto do Grande Aquário Maya (GAM) – uma iniciativa de pesquisa multidisciplinar do INAH em colaboração com a National Geographic Society -, se referiu ao Sac Actun como o “grande peixe que come o menino”, que absorveu o sistema Dos Ojos “para alcançar uma extensão equivalente à distância entre as cidades de Cancún e Chetumal”. “É muito improvável que haja no mundo outro local como esse, com essas características”, afirmou ao destacar a quantidade de artefatos arqueológicos encontrados e o nível de preservação que possuem.

O vice-diretor de Arqueologia Subaquática do INAH, o Dr. Roberto Junco, anunciou que a instituição quer promover a declaração do sistema Sac Actun como um poço misto, ou seja, que tem um componente natural, mas também cultural, de valor universal. A intenção é apoiada não apenas pelas instâncias federais competentes, como o próprio INAH, mas também é considerado pelo Congresso da União no México.

Arqueólogos devem mapear local com detalhes

A confirmação da interligação de cavernas na região de Sac Actun abre a possibilidade de um mapeamento e registro com mais detalhes de tudo o que foi descoberto no local. Segundo o arqueólogo Guillermo de Anda Alanís, essa proposta já havia sido levantada em 2013 durante uma reunião da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), mas agora há muitos mais elementos para apoiar o significado universal de todo o paraíso arqueológico na Península de Yucatán. Além do mapeamento, as próximas fases do projeto incluem a análise da qualidade da água do sistema Sac Actun, bem como o estudo da biodiversidade que depende diretamente do aquífero e sua conservação.
O Projeto do Grande Aquário Maya (GAM) está atualmente trabalhando na seleção de cinco contextos que, devido à sua importância ou mesmo a sua vulnerabilidade, devem ser documentados sob uma metodologia que inclui a criação de modelos digitais, um registro fotográfico suscetível detalhado e a obtenção de amostras de alguns materiais.

“Colár de pérolas”

Guillermo de Anda contou que muito do trabalho para a descoberta se deve aos mergulhadores da equipe de exploração GAM. O diretor do grupo, o alemão Robert Schmittner, mora há duas décadas nas praias de Quintana Roo e, há 14 anos, persiste na busca entre os túneis e galerias do grande labirinto que é Sac Actun. Alguns mergulhos da equipe podem se estender por até seis horas, com visibilidade mínima a profundidades que vão de 20m a 100m.
No ano passado, juntamente com os mergulhadores Marty O Farrell, Jim Josiak e Sev Regehr, Schmittner tentou encontrar a conexão entre Sac Actun e Dos Ojos em outra área, onde havia 15 cenotes virgens para exploração. Mas sem sucesso. No entanto, em um dos mergulhos que fez sozinho, em 10 de janeiro deste ano, ele escutou o som de uma corrente de água, o que o ajudou a identificar a conexão de Sac Actun com outro sistema de cavidades, o agora extinto, pelo menos em nome, Dos Ojos. 
O caminho era tão estreito, que o mergulhador teve que remover o par de tanques de oxigênio para conseguir acesso. “Quando, em 2004, comecei a explorar o Sac Actun, fiquei fascinado com a beleza cercada por estalagmites e estalactites. Naquela época, apenas 17 quilômetros do sistema de cavernas inundadas eram conhecidos. Agora, depois de procurar outras conexões no que eu equiparo com um “colar de pérolas”, o local atinge 347 quilômetros”, afirmou Robert Schmittner.

Passagens de água doce inundadas

De acordo com dados do Quintana Roo Speleological Survey, apenas 358 sistemas de cavernas submersas são distribuídos no Norte do estado, representando quase 1,4 mil quilômetros de passagens de água doce inundadas. Há pouco tempo, o sistema Ox Bel Ha, ao Sul de Tulum, era considerado o mais longo, com 270 quilômetros.
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