MPF pressiona Google para retirar vídeos de desafios perigosos do ar

(foto: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)(foto: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)

As crianças e os adolescentes do século 21 não conheceram o mundo sem internet e dominam como poucos os dispositivos eletrônicos, diante dos quais podem passar horas e horas. Mas o que é fonte de entretenimento e informação também pode ser a porta de entrada para ameaças que, muitas vezes, chegam por meio de vídeos que propõem “brincadeiras” e desafios que representam riscos à saúde e, em alguns casos, podem até matar. Diante dessa situação, o Ministério Público Federal (MPF) do Rio de Janeiro tenta fazer com que essas filmagens sejam retiradas rapidamente do ar.

A Procuradoria fluminense instaurou um procedimento administrativo para cobrar da Google um controle mais efetivo dos vídeos indexados nas buscas e postados no YouTube, site controlado pela gigante da internet. Segundo Ana Padilha, procuradora regional dos Direitos do Cidadão no MPF-RJ e responsável pela iniciativa, a empresa será chamada para explicar por que, depois de serem postados, vídeos perigosos ficam tanto tempo disponíveis na rede.

A medida do Ministério Público foi tomada depois que um desses vídeos provocou a morte de uma menina de 7 anos em São Bernardo do Campo (SP). No último dia 3, Adrielly Gonçalves realizou um desafio, proposto por youtubers, que consiste na aplicação de desodorante aerossol na boca. Adrielly teve parada cardíaca após inalar uma grande quantidade do spray. Parentes da menina e amigos da família postaram diversos apelos nas redes sociais, pedindo a atenção de pais e responsáveis para os riscos trazidos por esse e outros desafios que circulam na web.

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Segundo Ana Padilha, no primeiro momento, o Ministério Público elaborou uma notícia de fato, que consiste em um convite à empresa para debater o tema com a Procuradoria. A Google deve ser notificada nos próximos dias. Desse encontro pode resultar algum acordo ou, caso o MP sinta que haja necessidade, a instauração de um inquérito civil, que, por sua vez, pode gerar uma denúncia.

“Como o controle sobre esses vídeos é posterior (a plataforma não pode impedir a publicação), a conversa é sobre que medidas podem ser adotadas para que eles fiquem o mínimo de tempo possível no ar”, explica a procuradora regional, que, em 2017, atuou junto a Google no enfrentamento do desafio da Baleia Azul, que estimulava o suicídio de internautas.

Ana explica ainda que um ponto sempre delicado em discussões desse tipo são as diferentes visões sobre o que é considerado um vídeo adequado ou não para permanecer no ar. “Para o Google, o canal tem que possibilitar a liberdade de expressão dos usuários. A grande questão está na zona cinzenta do que a empresa considera ou não apropriado”, comenta.

Ferramentas de controle 

Ao Correio, a assessoria de imprensa do YouTube reconheceu que é um desafio monitorar todo o conteúdo publicado no site e que está desenvolvendo ferramentas para auxiliar nesse controle. Uma delas é um sistema que fará uma análise mais rápida das denúncias feitas pelos usuários. Outra é uma plataforma de machine learning que facilitará o trabalho de identificação de vídeos impróprios.

Ainda segundo a empresa, uma equipe analisa vídeos sinalizados como impróprios 24 horas por dia, sete dias por semana, para determinar se eles violam as diretrizes de comunidade. “Quando existe alguma violação, removemos os vídeos. Às vezes, um vídeo não viola nossas diretrizes, mas pode não ser adequado para todos. Esses vídeos podem ter restrição por idade. As contas são penalizadas pelas violações às diretrizes da comunidade e podem até ser encerradas se houver reincidência ou se as violações forem graves”, informou.

A retirada de circulação mais rápida desse tipo de material parece urgente, dada a enorme quantidade de vídeos potencialmente danosos publicados diariamente na internet. Levantamento da ONG Dimicuida, que se dedica à conscientização sobre o perigo dos jogos de asfixia, mostra que, apenas nas duas primeiras semanas de fevereiro, era possível acessar mais de 24 mil vídeos sobre “desafio do desmaio”, em português, no YouTube. Havia outros 800 mil em inglês.

Mãe do DF foi surpreendida

Os números mostram o poder de disseminação dessas mensagens, que podem chegar às crianças sem que os pais percebam. No Distrito Federal, a gerente administrativa Ludmilla Oliveira levou um susto ao saber que a filha, Eduarda, 6 anos, fez o desafio do desodorante, o mesmo que matou a pequena Adrielly. “Eu nunca tinha ouvido falar desse desafio, até ver a reportagem sobre a morte da criança de 7 anos”, conta a mãe. Espantada, ela perguntou se a filha conhecia o desafio do desodorante. “Na maior inocência, ela disse que sim e que tinha feito com os amigos.”

Ludmilla controla rigorosamente o acesso da filha à internet. A menina só pode usar o tablet em dias e horários específicos com a senha da mãe, que confere o histórico de busca. Mas Eduarda acabou sabendo do desafio por meio dos colegas de escola e contou que algumas crianças o realizaram no colégio e até na van escolar. “Na mesma hora em que ela me contou, pedi para que ela, quando ficasse sabendo de qualquer outro desafio, falasse para mim e, se visse algum amigo fazendo, que ela deveria avisar a professora”, conta. A mãe também conversou com o motorista da van e entrou em contato com a coordenação da escola.

Cinco maneiras de tornar a internet mais segura para seu filho

1. Idade ideal
Segundo especialistas, não se deve negar às crianças o acesso à tecnologia, mas é importante que os pequenos utilizem os serviços que condizem à sua idade e sob supervisão. O Facebook, por exemplo, restringe o acesso de menores de 13 anos. O site conta até com um formulário para denunciar quando uma criança abaixo dessa faixa etária está usando a rede social.
 
2. Navegador kids
Uma opção é o aplicativo Kids Mode (ou Modo Criança), um navegador desenvolvido especialmente para as crianças. O sistema transforma a tela do tablet ou do smartphone em uma espécie de desktop, no qual as crianças têm acessos a programas, games e sites predeterminado pelos pais.

 3. Cuidado com os aplicativos
Antes de fazer download de qualquer aplicativo, os pais devem conferir se é indicado para a idade da criança. Para verificar a classificação indicativa, na App Store, basta clicar logo abaixo do ícone do aplicativo. As classificações variam de 4 a 17 anos. No Google Play, é possível consultar a avaliação do conteúdo na área de “Informações Adicionais”.
 
4. Restrições

Para controlar o que os pequenos podem ou não acessar no tablet ou no smartphone, é possível estabelecer restrições. No iPad, basta ir na opção “Ajustes”, depois em “Geral” e em “Restrições”. Depois, selecione “Ativar Restrições” para escolher quais funções a criança terá acesso. Se decidir dar acesso ao iTunes, também é possível bloquear filmes por idades na opção “Restrições” dentro de “Ajustes”.
 
5. Denuncie 
Sempre que testemunhar algo que viole os direitos humanos ou ameace crianças, denuncie. São crimes conteúdo pornográfico (fotos, vídeos, histórias escritas) envolvendo crianças e adolescentes e materiais que induzem à mutilação ou ao suicídio. Muitos sites têm mecanismos de denúncia. E crimes podem ser informados por meio do Disque 100, pela internet, em delegacia especializada ou no Conselho Tutelar mais próximo.

Os limites entre proibir e educar

Estudos do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic) estimam que crianças e adolescentes constituem um terço dos usuários de internet no mundo. De 2016, a pesquisa TIC Kids Online indica que mais de a metade das crianças brasileiras com acesso à rede assistem a vídeos ou séries por meio de celulares, computadores e tablets. E um levantamento global sobre segurança infantil on-line, realizado pelo Instituto DQ em parceira com o Banco Econômico Mundial, divulgado no início do mês, mostra que 56% das crianças entre 8 e 12 anos estão expostas a perigos por meio da web.

O levantamento avaliou o comportamento de 34 mil crianças em idade escolar de 29 países (o Brasil não foi incluído). Desse total, 72% disseram gostar de assistir a vídeos na internet, e o YouTube foi o site mais apontado como o preferido das crianças, sendo citado por 54% delas. Em seguida, aparecem o aplicativo de mensagens WhatsApp (45%), o Facebook (28%), o Instagram (27%) e o Snapchat (23%).

Embora a rede de computadores represente riscos, especialistas não recomendam que os pais simplesmente proíbam os filhos de acessá-la, apesar de o uso poder ser monitorado (veja quadro). A proibição total, além de ser quase impossível de ser efetivada, impede o diálogo entre adultos e crianças, que precisam receber orientação e aprender a desenvolver uma análise crítica sobre o que veem.

A conversa é fundamental, ressalta a psicóloga responsável pelo Instituto Dimicuida, Fabiana Vasconcelos. “E as brincadeiras perigosas têm que fazer parte dessa conversa”, orienta. Outra dica da especialista para os pais é prestar atenção ao comportamento dos pequenos. Se eles começam a cobrir o corpo com determinadas peças de roupa, podem estar escondendo alguma consequências desses desafios, por exemplo. Mudanças no humor repentinas, como uma criança alegre que se torna introspectiva, também merecem atenção. “Se você perceber alteração física, comportamental ou emocional no seu filho, é que algo tem que ser conversado”, orienta.

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