Na reta final da Constituinte, oposição promete tomar as ruas da Venezuela

Juan Barreto/AFP Ativista contrário ao regime de Maduro é rendido e detido por agentes da Guarda Nacional Bolivariana, durante protesto em Caracas: radicalização

“Não podemos nos manifestar a partir de amanhã (hoje)? Então? Amanhã (hoje) já não será a tomada de Caracas, mas de toda a Venezuela.” A mensagem começou a ser replicada no Twitter por lideranças da coalizão opositora Mesa de Unidade Democrática (MUD), pouco depois de Néstor Reverol, ministro do Interior, da Justiça e da Paz, anunciar que, desde a zero hora de hoje (1h em Brasília), estão proibidos “reuniões, manifestações públicas, concentrações de pessoas e qualquer outro ato similar capaz de pertubar ou afetar o normal desenrolar do processo eleitoral” — em alusão à escolha da Assembleia Nacional Constituinte, no próximo domingo. Quem for flagrado participando de protestos poderá ser preso e condenado a penas que variam entre 5 e 10 anos.
“Vai proibir o quê? Vá preparando seus tanquetes, ditador. Amanhã (hoje), para a rua. Não queremos Constituinte, queremos vocês fora!”, escreveu Juan Requesens, deputado da Assembleia Nacional (AN), em seu perfil no Twitter. A Frente Unitária Sindical decidiu ampliar a greve geral de 48 horas, que seria encerrada ontem, até que o presidente Nicolás Maduro abandone o poder. Pouco depois das 19h de ontem (20h em Brasília), a aliança opositora revelou a estratégia em resposta a Reverol: além da “Tomada da Venezuela”, hoje, ocorrerão protestos no sábado e no domingo. “Temos que nos preparar para aprofundar nossa luta nas ruas de todo o país”, disse Freddy Guevara, um dos líderes da MUD e vice-presidente do Parlamento.

“Filhote de Hitler”

Maduro confirmou que não desistirá da reforma da Carta Magna e exortou a MUD ao diálogo. “Proponho à oposição política venezuelana que abandone o caminho insurrecional (…) e que estabeleçamos nas próximas horas, antes da eleição e da instalação da Assembleia Nacional Constituinte, uma mesa de diálogo”, afirmou o chefe de Estado, que chamou Guevara de “filhote de Hitler”, ao acusá-lo de provocar as mortes nos protestos. “Tem sua cela pronta, o filhote de Hitler”, avisou, durante comício de encerramento da campanha à Constituinte em Caracas, esvaziada pelo segundo dia de greve nacional.

Saiba mais

Por telefone, Marcela Máspero, presidente da União de Trabalhadores da Venezuela (Unete), avaliou a greve como “um sucesso, com balanços positivos em todos os setores”. “Ela continuará até a desistência da Constituinte pelo regime, a reforma dos Poderes Públicos, a convocação de eleições e a formação de um governo nacional”, comentou. Segundo a sindicalista, a mobilização entra hoje em uma fase ativa, “com todos nas ruas”. “Nosso direito (de manifestação) é constitucional.” A Coalizão Nacional Sindical anunciou que 88% do setor público (3,5 milhões de trabalhadores) e 95% do privado aderiram à greve.

Violência

A repressão deixou mais dois mortos e aumentou o número de vítimas para 108, desde 1º de abril. Em Naguanagua, no estado de Carabobo, Leonardo González, 49 anos, morreu durante protesto. Em El Paraíso, bairro de Caracas, Gilimber Terán, 16, faleceu ontem após ser baleado na cabeça por colectivos (paramilitares apoiados pelo governo), na quarta-feira. Freddy Guevara declarou à imprensa que seis manifestantes morreram desde anteontem. Às 18h30 (19h30 em Brasília), a Guarda  Nacional Bolivariana deteve Wuilly Arteaga, em Bello Campo, região da capital. Símbolo da resistência contra Maduro, o violinista que costumava tocar músicas na linha de frente das manifestações havia sido ferido pelos militares no último sábado.
O ex-deputado Juan Carlos Caldera, membro da direção nacional do partido opositor Primero Justicia, considera que a proibição anunciada por Reverol é “a ratificação do erro do regime em crer que o povo capitulará com a repressão”. “O diálogo proposto por Maduro é falso. Ele faz uso do diálogo como o extintor na hora do incêndio. Se quisessem diálogo, o teriam honrado em 2016, quando zombaram até do papa Francisco”, afirmou ao Correio. “A única opção viável inclui negociação, com acompanhamento internacional, para que o regime retorne à  Constituição. Se deseja  uma saída política, a primeira coisa que Maduro deve fazer é desistir da Constituinte fraudulenta”, acrescentou.
Por sua vez, o cientista político José Vicente Carrasquero Aumaitre, professor da Universidad Simón Bolívar (em Caracas), sustenta que a proibição de protestos “se insere nos processos habituais das eleições na Venezuela”. “A tomada da Venezuela obedece ao chamado à desobediência civil”, disse à reportagem. A ideia, de acordo com o especialista, é desconhecer a autoridade do governo, à medida que se considera a ruptura da ordem constitucional.

Arte/CB/DA Press
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