‘Na Venezuela, morreu a República’, afirma Luisa Ortega Díaz

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press

Foram três dias de negociações, dificuldades de comunicação e contatos insistentes com o marido e deputado Germán Ferrer, desde a passagem da procuradora-geral destituída da Venezuela por Brasília, na última quarta-feira. Em entrevista exclusiva ao Correio, Luisa Ortega Díaz demonstrou por que se tornou um dos maiores símbolos de resistência e oposição ao regime de Nicolás Maduro. A advogada de 59 anos  também se transformou em uma espécie de “arquivo vivo”. Garante ter provas de atos de corrupção cometidos pelo Palácio de Miraflores, sede do Executivo venezuelano, e do círculo de poder do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV). “Algumas (…) já estão em mãos das autoridades de alguns países, que se encarregarão de processá-las, de acordo com o seu ordenamento jurídico interno”, afirmou, desde Bogotá. Dissidente chavista, Luisa Ortega está sob proteção do presidente colombiano, Juan Manuel Santos, de quem recebeu oferta de asilo político. O mesmo fizeram os governos do Brasil e do Chile. A procuradora-geral destituída contou que avalia as opções de que dispõe. Espera escolher um novo país onde possa trabalhar pelo “restabelecimento da democracia” na Venezuela e para levar os  violadores dos direitos humanos à Corte de Haia, na Holanda. Ela alerta que uma solução para a crise política depende de “todo apoio e ajuda da comunidade internacional” e convida o Brasil a acompanhá-la na “cruzada de recuperação da democracia e da liberdade” no país vizinho. Para Luisa Ortega, a República “morreu” na Venezuela. “Quem acabou com ela são os que hoje governam de costas para o povo”, concluiu.

Em sua visita a Brasília, a senhora recebeu uma oferta de asilo por parte do chanceler Aloysio Nunes? Caso afirmativo, existe a possibilidade de aceitá-la?
Responderei a essa pergunta em seu devido momento. Agora, estou avaliando as opções que tenho. Para mim, é muito importante estar em um local onde eu possa trabalhar, de maneira otimizada, para procurar o restabelecimento da democracia na Venezuela. Também para conseguir que todas as pessoas que têm quebrado o nosso país e violado sistematicamente os direitos humanos dos venezuelanos respondam perante a Justiça internacional.
Por que a senhora e seu marido decidiram abandonar a Venezuela?
Na Venezuela, a nossa vida corria perigo. Eles sabem que a informação que manejo é contundente e real. Por isso, queriam me aprisionar e me calar definitivamente. O seu principal objetivo é se perpetuar no poder e subjugar o povo da Venezuela. A minha posição, enquanto defensora da democracia, da Constituição e dos direitos dos venezuelanos, era, para eles, mais do que incômoda e perigosa. Ainda que  eu esteja fora do país, o povo venezuelano pode estar seguro de que seguirei lutando incansavelmente contra este regime totalitário e corrupto. Um regime que busca submeter os venezuelanos, por meio da miséria, da fome e da enfermidade. É um governo violador dos direitos humanos, sem dúvida alguma.
Há saída para a crise política e institucional em seu país?
Nós, venezuelanos, podemos sair disso, mas necessitamos de todo apoio e ajuda da comunidade  internacional. É claro que existe saída. Nunca perderemos a esperança de recuperar a Venezuela e de que o país seja o que todos almejamos: uma terra na qual seu povo possa desfrutar de oportunidades, de segurança, de qualidade de vida e de valores cidadãos.
O regime de Maduro ameaça solicitar alerta vermelho à Interpol para sua captura internacional. Como vê isso?
Sabemos que as instituições internacionais estão cientes da ilegalidade do governo venezuelano. Estão conscientes de que isso não é mais do que uma perseguição política. Espero que façam caso omisso a essa solicitação. O contrário seria respaldar uma seita ditatorial que sequestrou a Venezuela.
De que modo o Brasil pode ter um papel mais proativo para solucionar a crise na Venezuela?
O Brasil e todos os países da região devem nos acompanhar nessa cruzada de recuperação da democracia e da liberdade da Venezuela. A premissa de todas as nações democráticas deve ser a de não cooperar, sob nenhum aspecto, com o governo venezuelano. Nicolás Maduro cerceou as liberdades dos venezuelanos e, através do medo e da violência, se aferra ao poder.
Quais provas a senhora tem do envolvimento de Maduro e de outras autoridades no escândalo de corrupção da Odebrecht?
Algumas das provas dos delitos cometidos por Maduro e por outros altos funcionários da Venezuela já estão em mãos das autoridades de alguns países, as quais se encarregarão de processá-las de acordo com o seu ordenamento jurídico interno.
As evidências podem ajudar oBrasil na condução da Operação Lava Jato, a fim de combater a corrupção?
A respeito da avaliação das provas, corresponde a cada Ministério Público ou Procuradoria, de acordo com a normativa legal que os regem.
Há indícios suficientes para levar Maduro ao Tribunal PenalInternacional por delitos de lesa- humanidade?
Nós temos provas contundentes que demonstram que o governo de Nicolás Maduro e Diosdado Cabello é violador sistemático dos direitos humanos. Cito ambos porque repartem o poder como quem divide um pedaço de terra. Sob as ordens deles, se desatou a mais cruel repressão que se evidenciou nas recentes manifestações na Venezuela. Como resultado, a morte de mais de 130 venezuelanos, em sua maioria jovens universitários, e mais de 2 mil lesionados. Não é pouca coisa que muitas pessoas morram na Venezuela por não terem medicamentos para tratar enfermidades já erradicadas em muitos lugares do continente ou que outros tantos tenham que comer do lixo. A justiça será feita, e eu não descansarei até consegui-la.
Como ficam o Estado de direito e a Justiça na Venezuela?
Na Venezuela, morreu o direito, destruíram as instituições, pisotearam a Constituição. No país, morreu a República. Quem acabou com ela são os que hoje governam de costas para o povo.
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