Oposição na Venezuela planeja anunciar, hoje, acordo para governo de união

Juan Barreto/AFP Caminhão em chamas é utilizado por manifestantes para interromper o tráfego na Avenida Francisco de Miranda, em Caracas: ativistas prometem fazer greve geral de 24 horas, com novos “trancazos”, amanhã
As principais ruas de Caracas e de outras cidades da Venezuela começaram a ser bloqueadas às 4h de ontem (5h em Brasília), em uma ação espontânea. Não houve convocação da Mesa de Unidade Democrática (MUD), empoderada pelos 7,6 milhões de venezuelanos que afluíram às urnas, no domingo, para rejeitar a Constituinte de Nicolás Maduro, demandar a ação da Força Armada Nacional em defesa da Constituição de 1999 e da Assembleia Nacional e aprovar a renovação dos poderes públicos. A coalizão opositora deflagrou, ontem,  a chamada “hora zero” — um conjunto de ações que incluem a formação de 2.020 comitês para convocar novos poderes públicos e impedir a eleição da Constituinte, no próximo dia 30. Hoje, os deputados da AN apresentarão à Venezuela um “acordo de governabilidade” para o próximo governo de união nacional. Amanhã, a oposição pretende parar todo o país em uma greve geral de 24 horas. Em Lechería, no estado de Anzoátegui, colectivos (paramilitares apoiados pelo governo) dispararam contra manifestantes, e um dos integrantes foi queimado vivo, ao ser atingido por um morteiro. Na capital, ativistas atearam fogo a um caminhão que teria tentado atropelá-los, na Avenida Francisco de Miranda.

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Sob intensa pressão da comunidade internacional e ante ameaças de sanções dos Estados Unidos, o presidente Nicolás Maduro garantiu que a Constituinte será realizada e convocou ao Palácio de Miraflores o Conselho de Defesa da Nação, formado, entre outras autoridades, pelo ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, e pelos presidentes do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) e do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), Maikel Moreno e Tibisay Lucena.  A medida, de acordo com ele, visa “responder integralmente à ameaça imperial”. “A resposta será muito firme, em defesa do patrimônio histórico anticolonial e anti-imperialista de nossa Pátria. Unidos, somos invencíveis”, afirmou.

“Ações fortes”

Foi uma reação ao comunicado divulgado na segunda-feira pelo líder norte-americano, Donald Trump. “Os Estados Unidos não ficarão alheios enquanto a Venezuela se desmorona. Se o regime de Maduro impuser sua Assembleia Constituinte, em 30 de julho, os EUA tomarão ações econômicas fortes e rápidas”, declarou o republicano, ao cobrar eleições “livres e justas” no país sul-americano. A Casa Branca não descarta a proibição de importações de petróleo aos Estados Unidos, nem sanções a autoridades do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV), como Padrino López e Diosdado Cabello, número dois do chavismo.
Poucas horas antes do início da “hora zero”, Óscar Pérez, um piloto que sequestrou um helicóptero e lançou granadas contra o prédio do TSJ, em 27 de junho passado, divulgou ontem nova mensagem aos venezuelanos. “O povo demonstrou que deseja uma mudança e acompanhou os políticos na consulta popular. Agora, que os políticos nos acompanhem, enquanto povo, em nosso direito à liberdade. Dar mais tempo a esse governo ilegítimo e anárquico é igual a mais mortes de nossos irmãos venezuelanos e a mais miséria”, disse o policial, em gravação de áudio. “A ‘hora zero’ é inevitável, senhores. Neste 18 de julho, bloqueio geral indefinido. Não negociamos com assassinos e com corruptos”, avisou, antes de exigir que o governo se ajoelhe perante a população.
Em entrevista ao Correio, Leonardo Regnault — deputado pelo partido Avanzada Progressista, que ficou ferido na invasão à Assembleia Nacional, em 5 de julho — explicou que a “hora zero” é um termo usado pela sociedade para expressar as exigências e reivindicações em distintas áreas. “Estamos convencidos de que a Constituinte fraudulenta não será realizada. Mais de 90% dos venezuelanos rechaçam essa fraude, e seria uma loucura levá-la adiante”, alertou. Ele defendeu uma transição política pacífica. “A sociedade civil é parte importante da nossa luta. Existe um compromisso total da população com essa batalha”, frisou.
Em pontos distintos de Caracas e em cidades como Barquisimeto e Palavecino (ambos no estado de Lara), a Guarda Nacional Bolivariana reprimiu protestos e feriu opositores com balas de borracha e coronhadas. O senador colombiano Iván Duque, membro do partido direitista Centro Democrático, e mais de 100 congressistas colombianos e chilenos oficializaram denúncia contra Maduro junto à Procuradoria do Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia (Holanda). O documento, de 56 páginas, conta com a assessoria do advogado internacionalista Andrés Barreto González e acusa Maduro de assassinato, deportação forçosa, encarceramento e privações injustas de liberdade, tortura, perseguição de um grupo ou coletividade específica e desaparecimento forçado de pessoas. Os parlamentares pedem ao TPI a abertura de investigação formal por sistemáticas violações ao direito internacional na Venezuela.

Arte/CB/DA Press

A música como forma de resistência

Wuilly Arteaga, 23 anos, cumpriu ontem a promessa de retornar às ruas depois do plebiscito de domingo passado. Por volta das 8h (9h em Brasília), ele chegou à Avenida Francisco Miranda, na altura da estação de metrô de Chacao, e começou a tocar, com o seu violino, o Hino Nacional da Venezuela e as canções Alma Llanera, Venezuela e Joropos. Ele e 13 manifestantes bloquearam o trânsito na via, uma das mais importantes de Caracas. “Se não fizermos algo, a Constituinte será realizada no próximo domingo. Quero ver uma Venezuela livre, quero que Maduro se vá, com seu bando. Quero fazer um concerto de rua, no qual todo o país cantará o nosso hino, na mesma hora e no mesmo lugar”, afirmou ao Correio um dos símbolos da resistência ao regime chavista. Para Arteaga, o resultado do plebiscito do último dia 16 foi “muito bom”. “Tivemos quase o mesmo número de participantes que votaram na eleição da Assembleia Nacional. Os partidos de oposição fizeram uma agenda de mobilização, mas as coisas mudaram um pouco. A sociedade civil está trancando as ruas, apesar de não haver uma convocatória para tanto. Isso é praticamente um desacato aos partidos políticos”, comentou.
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