Para 68% dos moradores, UPPs do Rio de Janeiro têm impacto positivo baixo

AFP / Vanderlei ALMEIDA

Iniciativa do tipo vitrine, feita para fazer o poder público aparecer bem na fita, as unidade de polícia pacificadora (UPPs) ganham olhar atravessado daqueles que são – ou deveriam ser – seus maiores beneficiários. Às vésperas de completar nove anos do dia de estréia da primeira UPP, em dezembro de 2008 na Favela Santa Marta da capital carioca, os moradores das áreas vizinhas veem com reserva, até mesmo indiferença, a companhia cotidiana dos 9.543 policiais que estão lotados em 38 postos policiais, segundo o governo do Rio de Janeiro. 
Resultado de pesquisa feita pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), da Universidade Cândido Mendes, indica que até 68% dos moradores das áreas sob influência das UPPs avalia como muito baixos os impactos positivos da presença das unidades nas comunidades. Entre agosto e outubro do ano passado, 2.479 pessoas com mais de 16 anos e residência em 118 favelas cariocas responderam questionário para subsidiar o estudo no qual consta que, para 49% dos ouvidos, a presença das unidades não melhora nem piora o cotidiano.
A sensação de indiferença é reveladora de que o cidadão se deu conta da perda de compromisso com a proposta original das UPP, a de pacificação. “Ao contrário, o que tenho visto é o fortalecimento da política truculenta de guerra às drogas”, avalia uma das coordenadoras do trabalho, a economista e mestre em antropologia social, Leonarda Musumeci. A pesquisadora do CESeC recomenda o resgate da ideia de polícia de proximidade, em contraponto à lógica bélica, e chama a atenção da importância de os habitantes atuarem, nas favelas, como atores e interlocutores das políticas públicas.   
Os moradores participantes do estudo  avaliaram que o maior benefício dessa ação do poder público para retomar a influência em áreas sujeitas ao controle da criminalidade é a sensação de segurança, de tranquilidade. Esse benefício aparece como opção de 56% dos entrevistados. E os tiroteios mais frequentes são o maior problema, conforme manifestaram 53% dos cidadãos que responderam ao questionário apresentado pelo CESeC. “Quando a polícia entrava, a gente ficava dentro de casa, se protegia da melhor forma”, disse um entrevistado. “Agora, eu vou na padaria e do nada pode acontecer tiroteio.”
Para aproximadamente metade das pessoas que atenderam à pesquisa, a ocorrência de trocas de tiros nas regiões onde há UPPs aparenta ser maior agora do que antes da chegada da polícia pacificadora. As respostas, com queixas pela alta frequência de abordagens com revistas corporais, os baculejos, indicam também distanciamento do conceito de polícia de proximidade. Outra evidência disso são as reclamações, vindas de 38% das pessoas que colaboraram para o estudo, em razão de situações nas quais os PMs xingaram ou humilharam moradores das comunidades.
As respostas indicam como aspectos positivos da presença constante da polícia o acesso a serviços públicos e privados e a oportunidades de emprego, a chegada de obras de infraestrutura urbana, de projetos sociais e, por fim, a sensação de liberdade de ir e vir. E há queixas de aumento dos alugueis, do êxodo de moradores, da ocorrência de tiroteios, mortes, desaparecimentos, roubos, furtos e estupros – em fevereiro de 2016, 12 policiais militares da UPP da Rocinha foram condenados pelo desaparecimento e morte, em julho de 2013, do ajudante de pedreiro Amarildo de Sousa.
O estudo mostra que, quanto mais jovem o morador da área sob influência da UPP, menor a chance de opinião favorável à iniciativa e maior a possibilidade da ocorrência de críticas. A percepção ruim vale também para as pessoas que, nos 12 meses anteriores à pesquisa, passaram por baculejos ou receberam policiais em casa para revistas. A pesquisa indica ainda que as unidades funcionam melhor, na avaliação do morador, em comunidades vizinhas a áreas nobres do Rio de Janeiro. “Em outras palavras, o resultado parece refletir a costumeira desigualdade de tratamento do poder público a regiões mais ricas e pobres do município”, afirma Leonarda.
Segundo a página da internet do governo do Rio de Janeiro que divulga as UPPs, hoje os moradores de 38 comunidades convivem diariamente com os tais policiais pacificadores. A última dessas unidades que começou a funcionar foi em maio de 2014, na Vila Kennedy. O ano em que mais se repetiram as aberturas desses postos policiais foi 2012, com 10 novas UPPs. A pesquisa do CESeC identificou entre os moradores a percepção de que as ações da polícia pacificadora foram pensadas para durar até os Jogos Olímpicos Rio 2016. 
Para 68% dos moradores, UPPs do Rio de Janeiro têm impacto positivo baixo
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