Para especialistas, retórica de Trump causou ocorrido em Charlottesville

AFP/ZACH GIBSON Manifestação em Washington após a morte de Heather Heyer, atropelada em Charlottesville
Poucas horas após James Alex Fields Jr., 20 anos, atropelar um grupo de pessoas que participavam de um protesto antirracismo em Charlottesville (Virgínia), no sábado, o presidente Donald Trump fez uma declaração considerada polêmica. “Nós condenamos, nos termos mais fortes possíveis, essa escandalosa amostra de ódio, de intolerância e de violência de muitos lados. Isso tem ocorrido há muito tempo em nosso país”, afirmou, sem citar a extrema-direita, a organização Ku Klux Klan (KKK) e outras facções supremacistas brancas. 
Enquanto os Estados Unidos se escandalizavam com a tolerância do republicano ante a explosão da violência racial, a Casa Branca tentava pôr panos quentes e “corrigir” a fala de Trump. “O presidente disse, da forma mais engérgica (…), que condena todas as formas de violência, fanatismo e ódio. Isso inclui, evidentemente, supremacistas brancos, neonazistas, a Ku Klux Klan e todo o tipo de grupos extremistas. Ele pediu união nacional e que todos os americanos estejam unidos”, afirmou a Casa Branca, por meio de um comunicado.

Saiba mais

Congressistas republicanos usaram um tom mais incisivo e condenaram o suposto acobertamento do mandatário. “Nós deveríamos chamar o mal pelo seu nome. Meu irmão não deu a vida combatendo Hitler para que as ideias nazistas não fossem desafiadas aqui em casa”, desabafou Orrin Hatch, senador pelo estado de Utah. O colega  Cory Gardner seguiu a linha de Hatch. “Senhor presidente, nós devemos chamar o mal pelo seu nome. Esses foram supremacistas brancos e isso foi terrorismo doméstico.” O senador Marco Rubio denunciou um “ataque terrorista por supremacistas brancos”.

Especialistas admitiram ao Correio a responsabilidade de Trump em fomentar as tensões raciais no país. “O que ocorreu em Charlottesville foi o resultado lógico da crescente polarização racial nos Estados Unidos, devido à retórica e às ações de Trump. A marcha de sábado reuniu supremacistas brancos da KKK mais velhos e novas gerações de ativistas brancos — a alt-right (“direita alternativa”) —, que se veem como globalistas e que se aliaram à Russia para salvar a ‘civilização branca’”, explicou Ruth Ben-Ghiat, professora de história e de estudos italianos da Universidade de Nova York.
Segundo ela, os dois grupos entenderam a eleição de Trump como uma chance de reverter as conquistas em igualdade racial feitas pelo governo do democrata Barack Obama. “Eles estão preocupados com as mudanças demográficas no país, as quais tornarão os brancos uma minoria, por volta de 2035. A cidade de Charlottesville é um ponto focal por possuir estátuas que simbolizam o racismo, como o monumento do general confederado Robert  E. Lee, o qual será derrubado”, acrescentou. Ruth admite que os eventos de Charlottesville e a brutalidade policial contra os negros mostram que o racismo persiste nos EUA. “De fato, o progresso que começou a ser feito contra o racismo, durante a gestão Obama, amedrontou os conservadores, os levando a apoiar Trump. Apesar de tudo, a herança dos direitos civis está viva e sedimentada, e tem inspirado movimentos de resistência”, disse.
Fundador do Instituto Martin Luther King Jr., da Universidade de Stanford, Clayborne Carson também criticou a retórica “abusiva” e “divisória” de Trump e afirmou que a direita  norte-americana se radicalizou nas últimas décadas. “Em todas as eleições presidenciais desde 1964, a maioria dos americanos brancos e a maior parte dos negros jamais votaram em um mesmo candidato. Depois da aprovação da Lei de Direitos ao Voto de 1965, milhões de brancos abandonaram o Partido Democrata e passaram a apoiar um Partido Republicano cada vez mais reacionário”, explicou.
Em Charlottesville, grupos de defesa dos direitos civis fizeram protestos pacíficos, ontem. Novo tumulto ocorreu quando Jason Kessler, organizador da marcha Unite the right (“Unam a direita”), realizada no sábado, participava de entrevista coletiva na frente da prefeitura. “Centenas de manifestantes o expulsaram do local. Agora, poucas pessoas estão reunidas para vigília em homenagem às vítimas, mas tudo está calmo”, disse ao Correio o consultor político Robert Grier, 25 anos. A cidade segue sob estado de emergência.

Investigação

O FBI — a polícia federal norte-americana — abriu investigação de direitos civis sobre as circunstâncias do atropelamento em massa em Charlottesville, que custou a vida de Heather Heyer, 32 anos, e feriu 19 pessoas. Tudo indica que o motorista, James Alex Fields Jr., agiu de forma premeditada. O professor Derek Weimer, que lecionou história para Alex em Kentucky, revelou que o ex-aluno “tinha fascinação pelo nazismo e grande idolatria por Adolf Hitler”. “Ele tinha visões supremacistas brancas e realmente acreditava naquilo.” A enfermeira Felicia Venita Correa, 34, amiga de Heather, crê que o ataque de anteontem foi planejado “não apenas para promover o ódio, mas para engendrar a raiva”. “Não acho que Trump esteja comovido. Ele sabia que o slogan ‘Tornar a América grande novamente’ seria usado assim”, admitiu ao Correio.
Para especialistas, retórica de Trump causou ocorrido em Charlottesville
Rate this post
Preso em Luziânia, líder do tráfico carioca será transferido para o Rio
Duração de licença-paternidade reforça desigualdade na criação dos filhos