Perfil: Paulo Silvino, o coadjuvante que todo protagonista queria ao lado

TV Globo/Blenda Gomes Paulo Silvino tinha um grande talento para criador de bordões, como “Dá uma pegadinha” e “Ah, eu preciso tanto”

O comediante Paulo Silvino era daqueles coadjuvantes que todo protagonista queria ter ao lado: talentoso, ele brilhava, mas não ofuscava estrelas como Jô Soares e Chico Anysio. Isso, porém, não diminui a importância dele. Pelo contrário, aumenta: o ator que nos deixou ontem pela manhã, aos 78 anos, era dos grandes. E vai deixar as telas e palcos brasileiros menos engraçados.
Paulo Silvino lutava contra um câncer no estômago desde 2016. Em julho deste ano, o ator passou por uma cirurgia para a retirada de um tumor na região. O tratamento continuou com sessões de terapia. Segundo comunicado da Central Globo de Comunicação, ele estava em casa quando morreu.
Silvino deixa três filhos: João Paulo, Isabel e Flávio, ator que chegou a atuar em novelas como Vamp, mas teve a carreira interrompida por um acidente. Numa rede social, João Paulo lamentou a perda e agradeceu o carinho dos fãs e amigos: “Que Deus te receba de braços abertos, meu pai amado”, completou. Isabel também escreveu nas redes: “Amigos, obrigada por todas as mensagens. Ainda estou naquele processar isso tudo. Mas posso dizer que ele foi bem, sem sofrer.”
Filho do comediante Silvino Netto e da pianista Noêmia Campos Silvino, Paulo Silvino começou a carreira pela música. Na adolescência, se apresentava como crooner de um conjunto de rock, acompanhado por músicos como Eumir Deodato (acordeom), Durval Ferreira (guitarra) e Fernando Costa (bateria). Aos 20 anos, participou da gravação do EP Nova geração em ritmo de samba. Mas esse não foi o primeiro contato dele com a arte. Nascido no Rio de Janeiro, cresceu nas coxias do teatro e nos bastidores das rádios onde o pai trabalhava.
O teatro e a tevê falaram mais alto para Silvino a partir da segunda metade da década de 1960, quando ele passou pelas principais emissoras do país, como Excelsior, Tupi e Globo. Entre os vários humorísticos de sucesso dos quais participou estão Balança, mas não cai (1968), Faça humor, não faça guerra (1970), Satiricom (1973), Planeta dos homens (1976) e Viva o Gordo (1981). O último programa dele foi o Zorra, versão atual do Zorra total, atração na qual esteve desde 1999, com poucos intervalos. No ano passado, o ator se afastou dos estúdios para cuidar da saúde e não mais voltou.
Além de ser mestre em caras e bocas, Paulo Silvino tinha um talento incrível para criar bordões. O do porteiro Severino, por exemplo, caiu na boca do povo e até hoje é possível ver gente por aí repetindo o “cara, cracha, cara, crachá” dele. São do artista outras pérolas como “Ah, eu preciso tanto!”, “Eu gosto muito dessas coisas!”, “Guenta! Ele guenta!”, “Ah, aí tem!” e “Dá uma pegadinha!”.

O homem que nos fazia rir

O dia foi de lamentos entre amigos e colegas de Paulo Silvino. Parceiro em vários programas, Jô Soares deu depoimento emocionado à Globo News. “De todos os meus colegas comediantes, Paulo Silvino era o que mais me fazia rir. Sempre inventava coisas diferentes. O mais ‘tonto’, o mais irreverente. Uma figura maravilhosa, com uma generosidade fantástica. Era um adulto criança. Falei para ele recentemente: ‘tem que lutar, vai em frente. Tem que sair dessa’.”
A atriz Betty Faria estava no programa Encontro, de Fátima Bernardes, quando soube da notícia. Emocionada, disse: “É uma despedida, uma saudade de não conviver mais com essa pessoa. De não ver mais, cruzar nos corredores aqui no Projac, de ver o trabalho. É essa a saudade. Não é um estranhamento com a morte. Um beijo, Paulo Silvino. Boa sorte!”
As redes sociais também foram utilizadas pelos atores para lamentar a partida. Filho de outro veterano do humor, Lucio Mauro Filho lembrou que o pai dele dirigiu Silvino em Balança, mas não cai. “No Dia das Crianças de 1982, meu velho abriu uma única exceção durante toda a minha infância e deixou que seu filho palhaço aparecesse no programa. E eu, do alto dos meus 8 anos, fiz minha estreia profissional na tevê, invadindo a abertura do programa, tirando o microfone do Silvino e apresentando, eu mesmo, o especial do Dia das Crianças”, contou. “Vejam a importância desse homem na minha carreira e na minha vida! Meus sentimentos aos meus amigos Flávio (a quem Paulo dedicou-se de corpo e alma desde que o filho se acidentou), João Paulo, Isabela e também à sua parceira, Giseli, mulher guerreira e apaixonada, que cuidou do meu mestre até o último segundo! Vai com Deus, Silvino! Já estou morrendo de saudades.”
Leandro Hassum, com quem Silvino contracenou no cinema e na tevê, disse que o ator será recebido no céu “aplaudido de pé”. Fabiana Karla não perdeu o bom humor e postou em sua homenagem: “Te amo para sempre. Obrigada por cada momento e cada risada. Aprendi muito com você. Deus te receba. Agora, São Pedro só abre a porta do céu depois de você conferir o crachá! Cara, crachá! Cara, crachá!”No cinema, Paulo Silvino estrelou mais de 10 comédias, entre as quais Sherlock de araque (1957), O padre que queria pecar (1975), e Até que a sorte os separe 3 (2015).

Memória

A dor não apagou o sorriso
Um dos momentos mais tristes da biografia de Paulo Silvino foi quando seu filho Flávio Silvino sofreu um acidente de carro que o deixou com graves sequelas cognitivas. Em novembro de 1993, Flávio voltava da casa da mãe quando o carro dele ficou prensado entre um ônibus e um caminhão, na Zona Norte do Rio.
Ele tinha 22 anos, e o irmão, João Paulo, também estava no carro. Flávio teve traumatismo cranioencefálico, perdeu parte do tecido muscular do braço esquerdo e ficou em coma por mais de três meses. Paulo se dedicou o quanto pôde para proporcionar bem-estar ao filho.
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