Pesquisadores estudam para evitar extinção de onça-pintada

Christian Sperka/Divulgação
Um dos principais símbolos da fauna brasileira, a onça-pintada é o maior felino das Américas e o terceiro do mundo, perdendo apenas para o tigre e o leão. Apesar disso, corre o risco de extinção. Preocupados com esse cenário, pesquisadores brasileiros, em parceria com especialistas de sete países, realizaram o sequenciamento do genoma desse animal. O grupo de cientistas também fez comparações com o DNA de outros quatro felinos que pertencem ao gênero Panthera — tigre, leão, leopardo-das-neves e leopardo — e conseguiu  encontrar genes semelhantes entre eles, que comprovam a hibridação (cruzamento das espécies) ocorrida no passado. Publicado na última edição da revista científica Science Advances, o estudo prova que os animais sofreram alterações adaptativas necessárias para garantir sua sobrevivência. A partir desses resultados, os pesquisadores acreditam que estratégias de preservação dos animais poderão ser definidas.
Leia mais notícias em Ciência e Saúde 
A análise durou cinco anos e teve como ponto de partida o sequenciamento genético de Vagalume, uma onça-pintada que vive no zoológico de Sorocaba, em São Paulo, após ter sido abandonada por sua mãe quando era filhote. “Meu objetivo foi encontrar um animal de cativeiro, o que ajudaria a colher as amostras, mas que tivesse como origem a natureza. Depois, expandimos esses dados e agregamos mais 30 onças-pintadas, todas do Pantanal”, explicou ao Correio Eduardo Eizirik, professor da Faculdade de Biociências da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e coordenador do estudo científico.

As informações genéticas das onças-pintadas foram comparadas aos genomas do tigre, leão e leopardo-das-neves, que já haviam sido sequenciados por outros cientistas, e também aos do leopardo, cujo mapeamento genético foi feito agora por cientistas da Universidade do Texas, também autores do estudo. Os pesquisadores explicam que os cinco felinos possuem um ancestral comum, que viveu há 4,6 milhões de anos e era parecido com o atual leopardo. De acordo com as conclusões, esse animal pré-histórico deu origem às espécies atuais e a outras já extintas. Todas surgiram inicialmente na Ásia e depois se espalharam por quase todo o planeta.

Cruzamento

Com todo o material disponível, o consórcio de cientistas encontrou mais de 13 mil genes semelhantes nas espécies, mas os achados mais importantes se referem às mudanças herdadas pelos animais devido ao cruzamento delas. Um dos casos detectados no estudo é o da onça-pintada com o leão. Os pesquisadores descobriram que a primeira herdou do rei da selva dois genes envolvidos na formação do nervo óptico, que se mostraram importantes para a adaptação da espécie. “Esses achados mostram que existiram diversos casos de hibridação, uma teoria bastante recente nessa área de pesquisa, com cerca de cinco anos. É o mesmo ocorrido com humanos. Já temos estudos mostrando que também nos relacionamos com outras espécies, como os neandertais”, explicou Eizirik.

O estudo aponta ainda genes responsáveis por mudanças adaptativas, que podem ter garantido a sobrevivência das espécies no meio ambiente. Dois deles mostram alterações no desenvolvimento do crânio da onça-pintada, que atualmente possui a mordida mais forte entre os grandes felinos. “Esses genes mostram uma cabeça mais robusta do que antes. Uma hipótese para que isso ocorra está no fato de hoje elas terem a necessidade de comer animais mamíferos menores e répteis que possuem cascos mais duros, como a tartaruga, por exemplo. Porém, também temos que levar em consideração que a nossa análise foi feita com onças vindas apenas do Pantanal. Elas possuem essa necessidade devido ao cenário em que vivem, precisamos observar outras para ter certeza”, ressaltou o autor do estudo.

O estudo dos pesquisadores brasileiros é o primeiro a mapear todo o genoma de um mamífero. Trata-se da análise mais ampla de genoma de felinos. Os dados encontrados podem ajudar na criação de um plano de proteção à onça-pintada. De acordo com os autores, elas ainda estão presentes em abundância na Amazônia e no Pantanal, porém sofrem grande ameaça e correm o risco de desaparecer na Mata Atlântica. “Com esses dados queremos entender melhor a história dessas populações, as diferenças adaptativas que existem entre elas em cada região brasileira. Dessa forma, caso tenhamos que repovoar determinadas áreas, podemos usar essas informações a nosso favor e descobrir os animais que melhor se adaptam a um local. Ou seja, teremos dados que podem ser transformados em estratégias de preservação mais eficientes”, ressaltou Eizirik.

Mariana Telles, professora de biologia na Universidade Federal de Goiás (UFG) e na Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), acredita que o estudo mostra grandes avanços principalmente para a área de preservação da fauna brasileira. “Podemos pegar esse modelo de estudo e utilizá-lo para cuidar de outras espécies, e dessa forma evitar que muitas cheguem a essa situação de risco, em que podem desaparecer totalmente, ainda mais no nosso país, onde possuímos uma população silvestre tão grande”, opinou a especialista, que não participou do estudo.

Para a bióloga, o investimento em mapeamentos de genoma pode render achados ainda mais interessantes. “Outro avanço que essas pesquisas oferecem está na área de biotecnologia. Por meio delas, é possível descobrir substâncias produzidas por esses animais e por plantas, que podem gerar recursos como medicamentos. Eu trabalho em uma área semelhante, em que realizo a mesma análise em plantas, como a cagaita, por exemplo. Porém, infelizmente, esbarramos no empecilho da falta de investimentos, que poderiam impulsionar ainda mais nossas pesquisas”, ressaltou Mariana Telles.

Pesquisadores estudam para evitar extinção de onça-pintada
Rate this post
Ainda não há data definida para normalização das entregas de passaportes
Senador John McCain sofre de câncer no cérebro