Regime de Maduro ameaça tomar parlamento e instalar à força a Constituinte

Lilian Tintori/AFP Leopoldo López (de branco) é conduzido por agentes do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin)
Em poucas horas, a Constituinte tomará o prédio do Palácio Federal Legislativo, sede da Assembleia Nacional (AN), e o regime de Nicolás Maduro realizará “as primeiras ações revolucionárias”. A ameaça, feita pelo vice-presidente, Tarek El Aissami, pode ser concretizada hoje. “O que nos resta é resistir, seguir lutando. (…) Apesar de toda a repressão, nosso povo seguirá adiante, lutando. Nós, da Assembleia Nacional, estaremos lutando ao lado do povo venezuelano”, afirmou ao Correio, por telefone, Julio Borges, presidente do Parlamento. “É preciso que os valores democráticos se imponham. A Constituinte provocará fraturas no regime. Maduro cava a própria tumba”, alertou. Em sessão carregada de tensão, depois da prisão, na madrugada, do líder opositor Leopoldo López e do ex-prefeito de Caracas Antonio Ledezma, os deputados aprovaram resolução por meio da qual se comprometem a tomar “todas as medidas e ações para depor a Assembleia Constituinte como poder ilegítimo”.
Numa demonstração de repúdio a Maduro, os embaixadores de Espanha, França, Reino Unido e México visitaram a AN, enquanto três parlamentares — Eustoquio Contreras, Ivonne Tellez e Germán Ferrer — romperam com o regime, abandonaram a bancada oficialista e criaram o Bloco Parlamentar Socialista, fiel a Hugo Chávez, mas não ao atual presidente. Do lado de fora do Palácio Federal Legislativo, colectivos (paramilitares do governo) buscaram semar o medo. “Eles assediaram todas as portas do prédio. Alguns de nós fomos agredidos. Amanhã (hoje), creio que eles se comportarão da única maneira que sabem. Esperamos que tentem tomar o palácio à força para instalar a Constituinte, violando todas as normativas legais”, disse, por telefone, Amélia Belisário, deputada do partido Primero Justicia. “A decisão dos três colegas chavistas de abrirem um novo bloco parlamentar foi importante, pois legitima mais a nossa missão.”

Saiba mais

As imagens das prisões de Ledezma e de López causaram forte comoção internacional (leia nesta página). À 0h50 de ontem (1h50 em Brasília), o ex-prefeito de Caracas foi arrastado pelos agentes do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin), ainda de pijamas, de seu apartamento, em um prédio de três andares em Baruta, bairro de Caracas. Cerca de 20 minutos antes, López tinha sido retirado de casa, em Chacao, sob a escolta de pelo menos sete homens. Ambos foram levados à penitenciária militar de Ramo Verde, a 35km da capital. Em nota, o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) garante que fontes de informações oficiais receberam denúncias sobre um “plano de fuga” dos opositores, que cumpriam prisão domiciliar. “É de salientar que as condições impostas a López não lhe permitiam fazer qualquer tipo de proselitismo político. No caso de Ledezma, o tribunal tinha lhe imposto como condição a obrigação de se  abster de emitir declarações”, justificou.

Preocupação
O Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU externou profunda preocupação com as prisões e pediu que Caracas liberte todos aqueles que exercem os seus direitos democráticos. A Casa Branca, por meio da porta-voz Sarah Huckabee, ressaltou que “os Estados Unidos condenam as ações da ditadura” e responsabilizam o regime pela integridade dos dois políticos. Na América Latina, o Brasil adotou a postura mais incisiva, denunciou “falta de respeito às liberdades individuais e ao devido processo legal” e instou Caracas a libertar “imediatamente” López e Ledezma. 
 O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, Luis Almagro, classificou a decisão do TSJ, “executada à margem de mínimas garantias de qualquer marco jurídico”, de “completamente prejudicial aos direitos humanos”. Enquanto o Panamá estuda retirar o seu embaixador de Caracas, a Itália advertiu sobre o risco de guerra civil e o chanceler do Reino Unido, Boris Johnson, disse que Maduro “age como ditador de um regime maligno”.
Juan Carlos Gutiérrez (leia o Três perguntas para), advogado de López, considerou que o envio de seu cliente e de Ledezma a Ramo Verde “indiscutivelmente tem um conteúdo de  retaliação”. “A prisão ocorreu vinculada  com a expressão de suas ideias e pensamentos, nos últimos dias”, disse ao Correio, por telefone. “Tudo indica que a repressão, as perseguições e a violação dos direitos humanos na Venezuela aumentarão exponencialmente. Nós nos encontramos frente a crimes de lesa humanidade.” Por sua vez, Victor Ledezma Camero, 29 anos, filho de Antonio, pediu apoio mais contundente da comunidade internacional. “Essa Constituinte falsa é uma aberração jurídica que desejam impor a nós. Precisamos do caminho da liberdade”, desabafou à reportagem.
Regime de Maduro ameaça tomar parlamento e instalar à força a Constituinte
Rate this post
PF investiga esquema de fraude na importação de equipamentos médicos
Sessões de leitura em grupo amenizam impactos de quem sofre com dor crônica