Restos mortais provam que habitantes originais de Canaã não desapareceram

Claude Doumet-Serhal - The Sidon excavation/Divulgação Restos mortais de cananeus foram encontrados no sítio Sidon: personagens-chave do Velho Testamento

Eles estão entre os personagens principais do Velho Testamento. Habitantes originais de Canaã, a Terra Prometida, de onde jorrava leite e mel, os cananeus, porém, caíram na desgraça perante Deus. O Todo-Poderoso entrou em guerra contra esse povo e ordenou que os israelitas tomassem seu lugar. Embora muito falados na Bíblia, eles não deixaram registros escritos. Por isso, não se sabe quase nada sobre sua cultura. Para desvendar o mistério milenar, um grupo de pesquisadores ingleses recorreu à tecnologia moderna. Com análise de DNA, começaram a decifrar a história de uma população que, ao contrário do que sugere o texto bíblico, não desapareceu. Ela sobreviveu e deu origem aos atuais habitantes do Líbano.

Já se sabia que, há milhares de anos, os cananeus viveram em uma parte do mundo que, hoje, corresponde a Israel, Palestina, Líbano, Síria e Jordânia. Lá, estabeleceram uma cultura influente no Oriente Médio e arredores. Apesar de não terem deixado escritos sobre sua história, foram eles que criaram o primeiro alfabeto que se tem notícia. Eram conquistadores: criaram colônias por todo o Mediterrâneo. Mas, se são muito falados nos livros do Velho Testamento, especialmente no Êxodo, os cananeus, de repente, parecem sumir do mapa. Se levada ao pé da letra, a Escritura afirma que esse povo foi aniquilado. Textos gregos e egípcios também os mencionam, mas, da mesma forma, não dão notícia de seu paradeiro.

Saiba mais

Sem saber quem eram, de fato, os cananeus, o que ocorreu a eles e de quem são descendentes, há tempos os cientistas debatem esse mistério. Agora, no maior estudo genômico de vestígios do Oriente Próximo, os pesquisadores do Instituto Wellcome Trust Sanger, da Inglaterra, sequenciaram o genoma total de cinco indivíduos cananeus de 4 mil anos que habitavam uma antiga cidade chamada Sidon, situada onde hoje é o Líbano, na Idade do Bronze. Ao comparar os resultados a outras populações antigas e 99 genomas modernos, eles constataram que os libaneses atuais descendem dessa rica cultura. O estudo foi publicado no American Journal of Human Genetics.

Desafio climático

“Descobrimos que os cananeus eram uma mistura de habitantes locais que se estabeleceram em vilas agrícolas durante o período neolítico e migrantes ocidentais que chegaram à região há cerca de 5 mil anos”, diz Marc Haber, primeiro autor do artigo (Leia três perguntas para). “Os libaneses do presente provavelmente são descendentes diretos dos cananeus, mas eles também têm uma pequena proporção de ancestralidade de eurasianos que devem ter chegado lá devido a conquistas de populações distantes, como os assírios, persas e macedônios”, completa. Essa miscigenação teria ocorrido por volta de 3,8 mil e 2,2 mil anos atrás.

De acordo com Haber, uma das maiores surpresas do trabalho foi constatar que o genoma de indivíduos que morreram há 4 mil anos em uma região seca e muito quente estava preservado, o que abre a possibilidade de se realizar estudos semelhantes sobre outras populações do passado. “Nós superamos esse desafio climático pegando amostras do osso petroso da caveira, que é bastante duro e tem grande densidade de DNA. Esse método de extração combinado com os custos baixos de sequenciamento total do genoma tornou o estudo possível.”

Diretor das escavações no sítio arqueológico de Sidon, no Líbano, Claude Doumet-Serhal observou, em nota, que esta é a primeira vez que se tem evidência genética da continuidade populacional na região desde a Idade do Bronze até a era moderna. “Esses resultados combinam com a continuidade cultural constatada por arqueólogos. A colaboração entre arqueólogos e geneticistas realmente enriquece ambos os campos de estudo e pode responder a questões sobre ancestralidade de formas que especialistas de nenhum dos campos poderiam responder sozinhos”, escreveu.

“Estudos genéticos usando antigo DNA podem expandir nossa compreensão da história e resolver dúvidas sobre origens e descendências de populações enigmáticas como os cananeus, que deixaram poucos registros escritos sobre eles mesmos”, concorda Christ Tyler-Smith, principal autor do trabalho e pesquisador do Wellcome Trust Sanger. “Agora, queremos investigar a história genética precoce e tardia do Oriente Próximo e ver como ela se relaciona com os arredores”, antecipa.

Três perguntas para Marc Haber, pesquisador  do Instituto Wellcome Trust Sanger e primeiro autor do artigo divulgado no American Journal of Human Genetics

O que o motivou a estudar o genoma dos cananeus?
Nós usamos genética para estudar o passado humano, e o Oriente Próximo é de grande interesse para nós, já que tem sido uma região central na pré-história e na história humana. Os cananeus eram uma cultura influente no antigo Oriente Próximo, mas sabemos muito pouco sobre eles. Com a genética, agora temos uma melhor compreensão de quem eles eram e de como contribuíram para as populações do presente. Surpreendeu-nos que as populações atuais parecem ser geneticamente muito semelhantes às da Idade do Bronze, apesar de essa ter sido uma época de muitas conquistas e expansões na região.

Além da importância histórica, o senhor poderia destacar outras implicações do estudo?
O DNA antigo não se preserva bem em climas quentes e secos, mas nosso estudo mostrou que, com a disponibilidade de ricos vestígios arqueológicos e com as melhorias na extração e no sequenciamento de DNA, estudos que usam material genético antigo do Oriente Próximo agora são possíveis.

O senhor acredita que a genética pode revolucionar a forma como a arqueologia e a história são escritas?
A genética, com os registros arqueológicos e históricos, pode fornecer um quadro mais completo do passado humano. Nosso estudo mostra que a genética pode contribuir para nossa compreensão da história humana, mesmo quando os registros históricos são escassos.

Restos mortais provam que habitantes originais de Canaã não desapareceram
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