Tempo de tratamento da hanseníase pode ser reduzido em 50%

CBPFOT061020170641.jpg Pesquisadores brasilienses coordenados por Gerson Penna descobriram um novo padrão para o tratamento da hanseníase

 

O combate à hanseníase deve ganhar um novo capítulo em 2018. Uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em Brasília, em parceria com o Núcleo de Medicina Tropical da Universidade de Brasília (UnB), mostrou que é possível reduzir de um ano para seis meses o tratamento, administrando três tipos de  medicamentos, já usados contra a doença. O Ministério da Saúde avalia a adoção do modelo como padrão em todo o país. A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um artigo que também considera a possibilidade.

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Apesar de ser uma doença controlada e com remédios eficazes, a hanseníase — que, na última década, acometeu 2,4 mil pessoas no DF — ainda merece atenção e muitos cuidados. A maior preocupação dos especialistas é que, com o tratamento prolongado, alguns pacientes deixam de se medicar. A capital federal registrou, em 2016, a maior taxa de afastamento em 10 anos: 7,6% pararam a terapia. Quando não tratados adequadamente, os pacientes transmitem o mal e sofrem com sequelas, como a perda de movimentos e deformações (leia Tira Dúvidas).

A redução no tempo de tratamento — acreditam os especialistas — é a maior inovação desde 1981, quando as terapias contra a hanseníase passaram a ser disponibilizadas gratuitamente. À época, a medicação se estendia por dois anos.

A pesquisa foi coordenada pelo médico dermatologista, especialista em doenças infecciosas e parasitárias, Gerson Oliveira Penna. Em entrevista exclusiva ao Correio, ele afirmou que a nova metodologia facilitará a rotina nos consultórios. “Com a padronização, os pacientes terão um tratamento melhor. Com isso, aumenta-se a qualidade de vida”, frisou.

Hoje, os doentes com até cinco lesões na pele tomam dois remédios por seis meses. Aqueles com mais ferimentos ingerem até três por um ano. “Essa classificação confunde o médico. O estudo comprovou que o esquema de três remédios por seis meses é eficaz para todos os pacientes. Os medicamentos são os mesmos usados hoje”, destacou. Ao todo, nome mil pacientes participaram do estudo, sendo que 853 deles foram acompanhados por seis anos.

Apoiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo Ministério da Saúde, a pesquisa custou R$ 1,6 milhão aos cofres públicos e começou em 2007. Dez instituições nacionais e internacionais colaboraram. “Outra descoberta da pesquisa é a reinfecção. Quatro pacientes que acompanhamos tiveram um tipo diferente de hanseníase, como ocorre com a gripe, que tem cepas diferentes. Amostras deles foram avaliadas na Suíça. Ainda estamos estudando o que causa isso”, comentou o médico.

Em novembro, técnicos do Ministério da Saúde devem se reunir para debater a adoção da estratégia. Os pesquisadores publicaram ao menos 15 artigos científicos em veículos internacionais. A OMS analisa as evidências científicas para a implantação em escala mundial. “O estudo brasileiro, entre os quatro existentes, é o que reúne todos os parâmetros exigidos na moderna medicina”, destacou a entidade. 

“Estigma”
Marly Araújo, presidente do Grupo de Apoio às Mulheres Atingidas pela Hanseníase (Gamah), acompanha casos no DF há quase duas décadas. “Muita gente acredita que o tratamento não é eficaz, por ser longo, e o estigma contra os pacientes aumenta. Com uma terapia mais rápida, o bem-estar aumenta, além de diminuir a desistência, que até hoje é um problema”, explicou. Marly tem a doença desde 1993.

O coordenador do Departamento de Hanseníase da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Egon Daxbacher, afirmou que os avanços na terapia devem estar aliados à estruturação da rede pública. “Temos que disseminar as informações. As pessoas não sabem como acontece o contágio, quais são os sintomas”, ponderou.

“O estudo comprovou que o esquema de três remédios por seis meses é eficaz para todos os pacientes. Os medicamentos são os mesmos usados hoje” 
Gerson Penna, coordenador da pesquisa

 

Tira dúvidas


O que é a hanseníase? 

Doença infectocontagiosa crônica incapacitante e de grande magnitude de transmissão. É desencadeada pela bactéria mycobacterium leprae, também conhecida como bacilo de Hansen — um parasita que ataca células da pele e dos nervos periféricos.

Quais são os sintomas?
Manchas esbranquiçadas, avermelhadas ou amarronzadas em qualquer parte do corpo, com perda ou alteração de sensibilidade. Área de pele seca, com falta de suor e com queda de pelos. Além da sensação de formigamento, choque, fisgadas e agulhadas ao longo dos nervos dos braços e das pernas, ocorre inchaço de mãos e pés. Há ainda o aparecimento de caroços, dor nas juntas, ressecamento nos olhos e perda da força dos músculos de mãos, pés e face, devido à inflamação de nervos.

Como se transmite?
Ocorre a partir de uma pessoa doente, sem tratamento, que elimina o bacilo por meio das vias respiratórias (secreções nasais, tosses, espirros). Em média, o micro-organismo fica encubado de 2 a 5 anos.

Como é o tratamento?
É ambulatorial. Administra-se uma associação de medicamentos — a poliquimioterapia —, conforme a classificação do paciente. Normalmente, usam-se fármacos como rifampicina, dapsona, rifampicina, dapsona e clofazimina.

Tempo de tratamento da hanseníase pode ser reduzido em 50%
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