‘Todos nós queremos a paz’, diz líder das Farc

 AFP / RAUL ARBOLEDA / “Não há porque seguir lutando com armas”, diz um dos mais importantes líderes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), agora Força Alternativa Revolucionária do Comum

Aos 62 anos, Jaime Alberto Parra — conhecido na guerrilha como Mauricio Jaramillo ou “O Médico” — é um dos líderes históricos das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), agora Força Alternativa Revolucionária do Comum, de mesma sigla. Um dos nove membros do Secretariado Nacional, o máximo órgão do grupo marxista, Jaramillo concedeu entrevista exclusiva ao Correio, durante a qual garantiu: “Todos nós queremos a paz, não podemos desperdiçar o momento”. Por telefone, ele fez um balanço das conquistas e reveses em meio século de conflito. Jaramillo chegou às Farc em 1978, vindo da Juventud Comunista. “Eu entrei nas Farc porque me fecharam as portas.”
Na condição de grupo civil, o que o senhor espera do futuro das Farc? 
Nós vamos contribuir para o desenvolvimento em todos os níveis. Pretendemos nos vincular às atividades econômica, política e educativa. Vamos nos vincular a tudo isso. Acreditamos que, com essa perspectiva, podemos garantir o desenvolvimento da atividade do país.
Qual é o legado de mais de meio século de conflito? A luta não era mais uma opção?
Não, não há porque seguir lutando com armas. Não existem características específicas, pelas quais teremos que empunhar armas. Não há absolutamente nenhuma. Então, nós estávamos lutando inutilmente, pois no país havia um processo de paz. Nós nascemos em 1964 e, desde muito antes, com o surgimento do movimento campesino liberal, lutamos pela paz na Colômbia. O que ocorreu foi que nos fecharam a porta. Posteriormente, tratamos de fazê-lo em outros processos de paz, como em La Uribe, em Caracas e em Caquetá. Mas não foi possível. Sempre nos fecharam a porta. Nunca nos cansamos de chegar ao primeiro ponto da agenda e sempre a porta foi fechada para nós. Um de nossos princípios, uma de nossas bandeiras, foi a paz. Agora que conseguimos, temos que lutar pelo desenvolvimento de sua implementação. Nisso estamos. Seguimos na luta.
O senhor é um dos líderes históricos das Farc. Que análise faz das conquistas da guerrilha nos últimos anos?
A nossa conquista fundamental tem sido a luta pela paz. Esse é o ponto principal para o povo colombiano. Estaremos sempre vinculados a essa ideia de transformar a Colômbia em um país tranquilo e em desenvolvimento. Uma nação onde nós trataremos de acabar com as desigualdades, de participar ativamente com o povo colombiano para que a Colômbia se transforme no que sempre propusemos: um país de paz e próspero. É um dos legados de que sentimos orgulho.

AFP / RAUL ARBOLEDA “Eu creio que o mais importante é que o povo colombiano tomou uma decisão, a qual seguiremos: a luta pela via política”
E quais foram os obstáculos enfrentados nesse processo?
A Colômbia é um país de muitas diferenças, disparidades, onde há abismos entre grupos sociais. Por aqui, há muita desigualdade e indiferença. Há uma distância muito grande entre os que têm muito e os que nada têm. Esse abismo distanciou os colombianos. É produto de uma economia neoliberal, que afasta as pessoas e  impõe a indiferença em um país de tantos problemas e angústias. Penso que um dos tempos mais difíceis foi durante as mudanças dos tipos econômicos do país, as quais produziram guerras e um abismo de confrontação sem limites, muitas vezes sem regras. Em algumas etapas, se implementaram os grupos paramilitares. Espero que todos nos aproximemos uns dos outros e digamos ‘Não mais guerra’, abrindo espaço à reconciliação.
Vocês pretendem obter forte representatividade nas instâncias decisórias do país?
Claro. Esta será uma prioridade e uma batalha nossa. Nós vamos fazer uma mobilização política em nosso país, em nossa região. Nós estaremos por todos os cantos e levaremos a nossa mensagem de paz, de desenvolvimento, de luta contra todas essas coisas que se vê aqui no país. Vamos propor aos colombianos para acabarmos com todas essas diferenças que levam o país ao caos. Nós cremos e estamos seguros de que alcançaremos gestos muito dignos para seguirmos na luta para mudarmos uma grande quantidade de situações que não são boas para o povo colombiano, que empobrece a cada dia. E que as diferenças desapareçam. Estamos fazendo uma proposta ao país e à sociedade colombiana. Uma proposta de mudança, de amplitude, de que todos nós, colombianos, alcancemos os objetivos propostos pela sociedade durante tantos e tantos anos de repressão e de desaparecimentos forçados. Todos nós queremos a paz e vamos obtê-la com todos os colombianos, sem distinção de partidos, de raça e de religião.
Existe o risco de ex-combatentes voltarem à luta armada, caso não se adaptem à vida civil?
Haverá companheiros nossos que não desejarão a via aberta por nós e que seguirão trabalhando pela via das armas. Creio que muitos poucos tomaram essa decisão. Mas é uma decisão deles. Nós faremos frente à luta política e a todas as adversidades que se apresentarem a nós. Levaremos adiante todo o acumulado histórico e saberemos alcançar objetivos que foram traçados. Durante o Congresso, estabelecemos as regras para atingir metas traçadas há mais de 50 anos.
Como as Farc enfrentarão as mágoas e divisões em uma sociedade ressentida por sequestros e pela violência?
Eu creio que o mais importante é que o povo colombiano tomou uma decisão, a qual seguiremos: a luta pela via política. Por meio de um plebiscito, a gente decidiu pela paz. Nós acompanheremos o povo colombiano em decisões e não haverá distâncias. O povo colombiano está decidido a acabar com tanta corrupção, com tanta desigualdade e com tantos problemas de saúde e de emprego. (RC)
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