Uso de antibióticos em animais criados para consumo traz riscos a humanos

Valdo Virgo/CB/D.A Press

A apresentação de receita médica é requisito para a venda de antibióticos em vários países. Nem sempre respeitada, a medida tem a intenção de evitar o consumo incorreto, que tem contribuído para o surgimento de micro-organismos que não respondem mais ao tratamento com esses medicamentos. Mas não são só os humanos quem entram em contato com essas substâncias de forma indevida. Elas também são usadas para prevenir doenças e aumentar o peso dos animais. Assim, dos criadouros, acabam chegando às nossas refeições.

Preocupado com esse cenário que favorece o surgimento das superbactérias, um grupo internacional de cientistas analisou a prática do uso de antibióticos na agropecuária e chegou a previsões preocupantes. O trabalho, detalhado na edição desta semana da revista Science, também traz uma sugestão de medidas que podem reduzir a presença desses medicamentos em alimentos.
“A ideia de conduzir o estudo veio após uma reunião de alto nível sobre resistência antimicrobiana (AMR, pela sigla em inglês) ocorrida no ano passado, na Assembleia Geral da ONU, que foi seguida por uma declaração. Nela, as Nações Unidas pedem aos estados-membros que tomem ações sobre AMR”, conta ao Correio Thomas Van Boeckel, um dos autores do trabalho e pesquisador do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça.
Boeckel e os colegas calcularam que, no mundo, em 2013, mais de 131 mil toneladas desses medicamentos foram utilizadas em animais criados para o consumo humano. Em 2030, essa quantidade deverá ultrapassar 200 mil toneladas, um aumento de 53%. “Essa ampliação no uso de antibióticos, principalmente como substituto de uma boa nutrição e higiene na produção pecuária, é simplesmente insustentável e será devastadora para os esforços feitos em prol de conservar a eficácia dos antibióticos atuais. Já enfrentamos uma crise, mas continuamos a usar esses medicamentos importantes para a promoção do crescimento em animais. É como derramar petróleo em uma fogueira”, afirma, em comunicado, Ramanan Laxminarayan, autor principal do estudo e diretor do Centro de Doenças Dinâmicas, Economia e Política (CDDEP), nos Estados Unidos.
O trabalho também chama a atenção para a importância dos países que mais produzem carne no combate às bactérias resistentes aos antibióticos. O Brasil faz parte da lista, perdendo apenas para a China e os Estados Unidos (Veja arte). O papel dos brasileiros é destacado por Boeckel. “Como um dos maiores produtores de animais alimentares do mundo — em frango particularmente —, o Brasil é muito importante para resolver a crise antimicrobiana global. Como a China, o Brasil deve ter uma posição de liderança nessas questões para mover as coisas globalmente”, defende.
Os pesquisadores preveem que, mesmo em muitos países em que o uso de antibióticos para a produção de alimentos é relativamente baixo, a prática pode explodir nos próximos 12 anos. O caso de Uganda é um dos exemplos usados pelo grupo. Em 2013, o país africano usou 199 toneladas de antibióticos em animais criados para o consumo humano e, pela realidade atual, até 2030, essa quantidade deverá ter duplicada.

Novas demandas

Para Werciley Júnior, infectologista e chefe da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Santa Lúcia, em  Brasília, apesar de a resistência a antibióticos ser um assunto bastante abordado globalmente, as pessoas não têm ideia de que o consumo de produtos animais pode estar contribuindo para o problema. “Nós sabemos que a agricultura consome grande parte dos antibióticos produzidos no mundo, mas acredito que a maioria das pessoas não tenha conhecimento disso. Felizmente, essa preocupação tem se tornado maior. Nos Estados Unidos, por exemplo, já começa a surgir um selo para carnes que mostra quais  estão livre de antibióticos”, diz.
O médico, que não participou do estudo, acredita que novas alternativas nessa mesma linha devam surgir. “Assim como chegamos a investir mais em produtos orgânicos, essa exigência de carnes sem antibióticos não está tão longe, pode se tornar algo comum no futuro.” Para o especialista, as novas demandas provocarão também melhoras na criação dos animais. “Temos que mudar a cultura de visar apenas o lucro. Ao tirar os antibióticos, um cuidado maior com eles também terá que surgir, como melhorar as formas de evitar surto de doenças neles.”

Problemas no laboratório

Um relatório divulgado na semana passada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) mostra que até os antibióticos que ainda não chegaram às farmácias já podem estar com a eficácia comprometida. A entidade considera que das 51 drogas e combinações de medicamentos em testes para o tratamento de micro-organismos resistentes prioritários, apenas oito têm “potencial para adicionar valor ao arsenal atual” de medicamentos.

Medidas alternativas

Além de analisar o uso de antibióticos na criação de animais para o consumo humano, os pesquisadores apontam três medidas que podem reduzir a prática e, consequentemente, o surgimento das bactérias resistentes.  São elas: leis que restrinjam uso de antibióticos em animais de fazenda,  limitação da ingestão de carne ao equivalente a um hambúrguer por pessoa por dia e uma taxação de 50% sobre o preço dos antibióticos veterinários usados.
Respectivamente, as medidas reduziriam o uso desses medicamentos em 64%, 66% e 31%. Adotadas conjuntamente, a queda chegaria a até 80%, segundo os autores. “Uma taxação modesta sobre o preço dos antibióticos veterinários é apropriada dada a magnitude da ameaça e pode desencorajar as práticas de criação de gado que envolvam o uso de grandes quantidades de antibióticos”, defende Thomas Van Boeckel, um dos autores.
A equipe ressalta ainda que as intervenções sugeridas podem provocar uma mudança extremamente necessária e urgente ou dar início a novas práticas nesse sentido.  “Certamente, acredito que essas alternativas poderiam ser aplicadas para reduzir o consumo de antimicrobianos em todo o mundo, talvez não na medida em que nos mostramos, uma vez que essa é uma situação ideal, mas, certamente, elas estão na direção certa”, diz Boeckel. 
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