Violência de motivação racial desafia governo Trump

Alec MacGillis/ProPublica/AFP Estátua do general Robert Lee, comandante das forças escravistas na Guerra da Secessão: símbolos de supremacia acirram a questão racia

Entre o pôquer nuclear com a Coreia do Norte e a devastação causada no Texas pela tempestade Harvey, Donald Trump encontrou pouco tempo, nas últimas semanas, para avaliar o impacto de mais longo prazo de um persistente foco doméstico de tensão. A divisão racial, que permeia a história política dos Estados Unidos desde a Guerra da Secessão (1861-1865), voltou a mostrar a cara em meados de agosto, em Charlottesville, na Virgínia, onde grupos de extrema-direita se uniram a defensores da supremacia branca em uma marcha contra a remoção de uma estátua do general Robert Lee, que há um século e meio comandou as tropas sulistas (confederadas), defensoras da escravidão. Um militante neonazista atropelou manifestantes, causando uma morte e colocando em posição difícil o presidente: depois de manter silêncio por dois dias, Trump inicialmente condenou o racismo, para no dia seguinte responsabilizar “ambos os lados” pela violência.
Opositores do bilionário foram rápidos em recordar os laços políticos estabelecidos por ele, durante a campanha, com setores mais à direita no espectro político, em especial sua relutância em repudiar o apoio declarado por um ex- líder da organização racista Ku Klux Klan (KKK), David Duke, ainda durante as eleições internas do Partido Republicano. E mesmo correligionários censuraram o presidente, agora, pelas hesitações no caso de Charlottesville.
“Já vemos evidências de que as declarações de Trump atingiram suas taxas de aprovação, principalmente por ele ter sido condenado por muitos políticos republicanos influentes, como os senadores John McCain e Marco Rubio”, analisa Keith Bockelman, titular da cadeira de ciência política na Universidade do Oeste de Illinois. Como outros estudiosos, ele avalia que a vitória de Trump na eleição presidencial de 2016, de certa maneira, encorajou os supremacistas. “Eles se veem como parte da coalizão que elegeu o presidente, e acho que ele próprio também vê as coisas assim”, afirma Bockelman. “Os racistas parecem acreditar que têm um presidente ‘do lado deles’, e com isso se sentem animados a se fazerem mais visíveis, mais ouvidos, mais ativos.”
Como o cientista político de Illinois, outros scholars lembram que a crescente audácia política dos supremacistas se desdobra dos repetidos incidentes de violência racial vividos nos oito anos de governo de Barack Obama, o primeiro presidente de origem afro-americana. “Uma das esperanças despertadas pela eleição de Obama foi de que ele estaria em posição de melhorar as relações raciais”, observa Timothy Hagle, do Departamento de Ciência Política da Universidade de Iowa. Ele lembra que, a despeito das diferenças de opinião sobre progressos nesse terreno ao longo do século 20 (leia o Para Saber Mais), a existência do problema é um consenso no país. “Infelizmente, as expectativas em torno de Obama não se concretizaram. De fato, em alguns aspectos, a questão racial se tornou pior.”

Olho no voto

Os dois estudiosos coincidem no diagnóstico de que é com as atenções voltadas para as eleições legislativas de 2018 que muitos congressistas republicanos procuram distanciar-se de posições que possam ser consideradas racistas — e de Trump, na reação ao episódio de Charlottesville. “Ainda falta muito tempo, e não tenho certeza se esse tema será necessariamente um grande problema para os governistas, mas alguns grupos ativistas e parte da mídia estão listando os políticos que não se pronunciaram claramente contra as declarações do presidente”, explica Hagle. “Se eles tiverem de empenhar esforços nessa questão durante a campanha, terão menos tempo para defender seus projetos de legislação.” Para Bockelman, é “a impopularidade de Trump que poderá se tornar um peso para os republicanos”, mas a questão racial pode ajudar a mobilizar nas urnas o eleitorado negro, em favor da oposição democrata.

“As expectativas em torno de Obama não se concretizaram. De fato, em alguns aspectos, a questão racial se tornou pior”
Timothy Hagle, professor da Universidade de Iowa

Tensão em St. Louis

No meio-oeste, St. Louis teve um fim de semana de tensão após a absolvição de um policial branco pela morte de um negro. Manifestações contra o veredicto terminaram em quebra-quebra e enfrentamento com a polícia. Ao menos 39 pessoas foram presas, e dois shows — um deles da banda U2 —, cancelados. O ex-oficial Jason Stockley foi absolvido das acusações de assassinato de Anthony Lamar Smith, um suposto traficante de drogas, em uma perseguição. A Justiça considerou que a promotoria não demonstrou que o policial não tenha agido  em legítima defesa. Stockley alega ter visto a vítima tentando pegar um revólver de seu carro. A câmera instalada na viatura, porém, não fez esse registro, nem a do celular da vítima.
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