Homo sapiens pode ter deixado a África 50 mil anos antes do estimado

Mina Weinstein-Evron, Haifa University/Divulgação e Israel Hershkovitz, Tel Aviv University/Divulgação Mandíbula com oito dentes e cerca de 200 mil anos foi encontrada na Caverna Misliya, em Israel, e provavelmente pertenceu a um indivíduo do sexo masculino

Saber quando o homem se levantou do berço e engatinhou para fora da África é uma das principais questões para a compreensão da evolução humana. Hoje, é praticamente consenso entre pesquisadores que esse movimento aconteceu em diversas ondas migratórias, contradizendo o modelo segundo o qual um grupo único saiu do continente e começou a colonizar o resto do planeta. Agora, cientistas israelenses, espanhóis e norte-americanos sugerem que uma dessas incursões ocorreu antes do que se imaginava. Eles anunciaram, na revista Science, a descoberta do fóssil Homo sapiens mais antigo já encontrado além do território africano.

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De acordo com Rolf Quam, antropólogo da Universidade de Binghamton, nos EUA, e coautor do estudo, o achado sugere que o homem moderno deixou a África entre 175 mil e 200 mil anos atrás — ao menos 50 mil anos antes do que as provas que se tinha até então sugerem. O fóssil, uma mandíbula com oito dentes, foi encontrado na Caverna Misliya, no Monte Carmelo, em Israel. As escavações no local pela expedição começaram há 13 anos e, desde então, os cientistas resgatam preciosidades de várias épocas da história do homem no sítio arqueológico, que é Patrimônio Mundial da Humanidade. Mas nenhuma delas foi tão comemorada pelos cientistas israelenses quanto a estrutura óssea que, provavelmente, pertenceu a um indivíduo do sexo masculino.

“Até agora, parece que ele representa a mais antiga evidência fóssil da migração de membros do grupo Homo sapiens fora da África. Portanto, isso abre as portas à possibilidade de que a dispersão do homem moderno desde a África aconteceu antes que pensávamos, provavelmente antes de 200 mil anos atrás. Isso também foi sugerido recentemente por evidências genéticas”, destaca Israel Hershkovitz, pesquisador da Universidade de Tel Aviv que liderou o trabalho.

Ele refere-se a um artigo publicado em dezembro, também na revista Science, do Instituto Max Plank, que usou análises de DNA para determinar que a migração dos primeiros humanos para a Ásia teria ocorrido cerca de 60 mil anos antes do que está escrito nos livros de história. “É provável que essas dispersões iniciais tenham sido feitas por pequenos grupos e ao menos algumas dessas primeiras dispersões deixaram traços genéticos nas populações humanas modernas”, explicou, à época, o antropólogo Michael Petraglia, que integrou a equipe.

Interações

O antropólogo Rolf Quam diz que a descoberta em Misliya é “extraordinária”. “Ela fornece a evidência mais clara, até agora, de que nossos primeiros ancestrais migraram da África muito antes do que pensávamos. Também significa que os homens modernos já estavam potencialmente se encontrando e interagindo por um período de tempo maior com outros grupos humanos arcaicos, ampliando a oportunidade de trocas culturais e biológicas”, observa. As técnicas de datação da mandíbula e da camada de rocha de onde os cientistas a extraíram foram repetidas em três laboratórios diferentes e estimaram a idade do fóssil entre 175 mil e 200 mil anos.

Além de determinar a idade do material, os pesquisadores fizeram testes de tomografia computadorizada e realizaram modelagens tridimensionais virtuais para, então, comparar a estrutura óssea à de outros hominídeos da África, Europa e Ásia. Quam afirma que algumas características anatômicas da mandíbula são consistentes com as dos homens modernos, ao mesmo tempo em que outras também já foram detectadas em neandertais e outros grupos humanos. “Um dos desafios desse estudo foi identificar características em Misliya que só se encontram no homem moderno. Esses são os traços que fornecem o mais claro sinal de qual espécie esse fóssil representa”, afirma, completando que a espécie é a Homo sapiens.

Presente na expedição desde o início, em meados da década de 2000, Israel Hershkovitz conta que outras evidências arqueológicas recuperadas na Caverna Misliya sugerem que os habitantes locais eram caçadores de grandes mamíferos, capazes de controlar o fogo e usuários de uma tecnologia lítica (ferramentas de pedra) semelhante à dos primeiros homens modernos da África. “As épocas e as rotas da migração humana fora da África são questões-chave para compreendermos a evolução da nossa espécie. A região do Oriente Médio representa um importante corredor para as migrações dos hominídeos durante o Pleistoceno e foi ocupada em tempos diferentes tanto pelos homens modernos quanto pelos neandertais”, explica.

“Também significa que os homens modernos já estavam potencialmente se encontrando e interagindo por um período de tempo maior com outros grupos humanos arcaicos, ampliando a oportunidade de trocas culturais e biológicas”
Rolf Quam, antropólogo da Universidade de Binghamton coautor do estudo 

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