Música alta faz pessoas escolherem comidas não saudáveis, mostra pesquisa

(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)

Pesquisas científicas mostraram que a música pode influenciar o estado de espírito das pessoas. E também podem interferir nas escolhas alimentares, segundo um recente estudo americano. Por meio de um experimento realizado em um café, cientistas descobriram que o volume da canção tocada no ambiente exerce efeito sistêmico sobre as preferências dos consumidores por alimentos saudáveis ou não saudáveis. Os resultados foram publicados na última edição da revista Journal of the Academy of Marketing Sciences.

Estudar quais os fatores influenciam na compra de alimentos é um tema bastante explorado pelo autor principal do estudo, Dipayan Biswas. “Eu tenho trabalhado, por um tempo, nos efeitos de fatores ambientais e atmosféricos no comportamento de compra de alimentos. Por exemplo, anteriormente estudei os efeitos da luz ambiente”, conta o professor de marketing da Faculdade de Administração da Universidade do Sul da Flórida.

Biswas conduziu o estudo em um café em Estocolmo, na Suécia. Para a análise, tocou vários gêneros musicais a 55 e 70 decibéis. Quando as canções eram tocadas, os cientistas monitoravam os pedidos dos clientes. Os ingredientes do menu tinham as seguintes categorias: saudáveis, não saudáveis e neutros — usada para itens como café ou chá.

O experimento durou vários dias e foi feito em horários distintos. Os pesquisadores descobriram que 20% a mais de clientes pediram um prato não saudável quando expostos a música ambiente mais alta, quando comparados aos que passaram pela experiência com uma trilha sonora mais tranquila.

Os pesquisadores explicam que a música mais suave tem um efeito calmante, tornando as pessoas mais conscientes do que pedem. Isso, normalmente, resulta em escolhas mais saudáveis, como uma salada para a refeição. Ambientes com som muito alto, por outro lado, aumentam a estimulação e o estresse, inspirando os clientes a desejar um cheeseburger com batatas fritas, por exemplo.

Emoções

Rodrigo Melo, psicólogo do Instituto Castro e Santos e especialista em análise do comportamento, destaca que o estudo americano é extremamente interessante. “O que mais chama atenção é condição com a qual os participantes consumiram itens mais saudáveis, estimulados de uma forma mais calma”, diz. “Se conseguirmos entender os processos que podem facilitar a alimentação mais saudável, podemos promover uma melhora do estado dos indivíduos de forma mais efetiva.”

O pesquisador também acredita que a pesquisa mostra uma relação ainda mais profunda entre a música e os variados estados emocionais do ser humano. “É sabido que a música foi e é utilizada para alterar estados emocionais, quer seja por terapias, quer seja por regimentos militares. No entanto, esse saber de que a música pode influenciar comportamentos de consumo mais ou menos saudáveis deve ser de grande valia quando tentamos modificar comportamentos de pessoas que, por exemplo, tenham uma condição de saúde em que necessitem consumir alimentos mais saudáveis.”

Marketing

Biswas explica que, embora estudos anteriores tenham analisado aspectos variados do impacto do ambiente na venda de alimentos, como iluminação, aroma e decoração, o trabalho liderado por ele é o primeiro a analisar especificamente como o som ambiente interfere nas escolhas alimentares. O cientista acredita que a descoberta poderá ajudar os estabelecimentos comerciais em estratégias de marketing. “Restaurantes e supermercados que querem ter um nível maior de vendas de alimentos saudáveis devem ter música ambiente de baixo volume, enquanto a música ambiente de alto volume levaria a maiores vendas de alimentos não saudáveis”, resume.

Biswas adianta que a pesquisa terá continuidade, com o objetivo de entender melhor os fatores que influenciam a compra de alimentos. “Tenho projetos em andamento examinando outros aspectos dos fatores ambientais. Esses projetos utilizam os dados da pesquisa que examina os efeitos do volume da música ambiente”, diz.

Melo também acredita que a pesquisa merece ter continuidade e que seus desdobramentos poderiam, por exemplo, analisar como utilizar a música para tratar disfunções alimentares ou como melhorar os hábitos de crianças. “Algumas perguntas poderiam ainda ser respondidas. Por exemplo, qual impacto dessa modificação do consumo de alimentos saudáveis no índice geral de obesidade de uma população? Ou como, efetivamente, produzir mudanças alimentares utilizando volume do som ambiente? E, por fim, quais outros ambientes que poderiam também fazer bom uso do volume de música ambiente para fins de modificar alguns comportamentos?”, lista.

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